segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Do not stand here

Things happened in life, and you felt them, but it was all in your mind, the colors, the fear and the anxiety. People surrounded you and houses did, and towns, but what you saw was not so important as what you felt. Life was one thing after another, a brief insanity, a series of inexplicable transitions that seemed at the time sensible but at second sight ridiculous, a succession of unconnected incidents, accidental relationships.

John Dufresne, Deep in the Shade of Paradise

Danny Lyon, 1966 véspera de ano novo no metro de Nova Iorque







domingo, 30 de dezembro de 2012

"Who is it that can tell me who I am?" *

* Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV

Não é bastante
que eu reconheça a minha solidão
e a queira como início dum caminho.
Não é bastante
ser livremente tudo quanto sei
e estar aberto a tudo o que serei.
Tudo o que fui e o que sou e o que serei
já são iguais
no tempo do meu todo ignorado.
Quero abrir o que as palavras não descrevem
para já não responder ao sim e ao não
do meu espelho conhecível.
Já não me basta apenas dar um nome
à morte que me cabe enquanto vivo
porque morrer é ter perdido a morte
para sempre
tornando sem sentido o sim e o não
com que me circundei e defini-me.
Conheço-me as fronteiras.
Quero o resto.

Helder Macedo

A Dupla Vida de Verónica, de Kieslowski, 1991

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Elegia 1938


Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


Carlos Drummond de Andrade


 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O guarda-chuva

René Jacques, O Homem da Noite, 1939


Chovem protestos palavras
dramaturgos e profetas
a chuva dos manifestos
fecunda a horta das letras.
Chovem bátegas de sílabas
chovem doutrinas e tretas
chovem ismos algarismos
que numeram os poetas.
Chovem ciências ocultas
chovem ciências concretas
e nascem alfaces cultas
para poemas-dietas.
Chovem tiros de espingarda
chovem pragas e lamentos
e cresce a couve lombarda
nos quintais do sentimento.




Chove granizo política
dum céu carranca cinzento
constipa-se logo a crítica
que se mete para dentro.
Chovem as poetisas símias
da menina flor dos olhos
surgem canteiros de zínias
salpicados de repolhos.

Brassai, 1935

Chovem as mulheres-a-dias
com os sonetos nas curvas
lavadeiras de poesia
em barrela de águas turvas.
Chove uma chuva de pedra
chovem astros em cardume
 há uma erva que medra
com este estrume de lume.

Medra a erva do talento
medra a baga do azedume
não há erva que não medre
nas estufas do ciúme.
Chove uma chuva miúda
que é chuva de molha-tolos
sai o poema taluda
e saem rimas nos bolos.

Para o poeta que chova
por dentro, em razão inversa,
forçoso é ter guarda-chuva
contra a palavra perversa
que foi um chão que deu uva
e hoje só dá conversa.


José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Esperança

"Esperança", Mafalda Silva, Contributor Magazine, 2012

“There are times in your life when, despite the steel weight of your memories and the sadness that seems to lie at your feet like a shadow, you suddenly and strangely feel perfectly okay.”

Kevin Brockmeier

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

À Fortuna

Fortuna, que me persegues,
Pequeno triunfo tens:
Eu desejo só vontades,
Tu disputas-me vinténs.
Basta-me o que me deixares,
Quando tudo me levares.

Basta-me esta alma que tenho,
Constante como os penedos;
Basta-me as águas das fontes,
E a sombra dos arvoredos;
Ponho-me ao fresco no Estio,
E aquento-me, andando ao frio.

Basta-me o Sol, que não podes
Apagar, e à noite a Lua.
Se me tirares a casa,
Irei dormir para a rua.
Sopa, não me dá cuidado,
Tem muitas plantas o prado.

Se o teu rigor se estendesse
A tirar-me o meu tinteiro,
Escreveria nos troncos,
Com um prego, este letreiro:
«Vim ao mundo sem camisa,
Ninguém, morrendo, a precisa.»

Marquesa de Alorna

 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Repulsa


O nojo, o nojo visceral, Senhor.

Dai-nos o nojo, Senhor, o sagrado, o supremo nojo
de que se irá decidir a nossa salvação e a salvação dos que,
enojados como nós,
antepõem o vómito a esta mansidão de sombras paradas pelo
chão.

Dai-nos o nojo, Senhor, o nojo que a marca da repugnância
favorece e docilmente nos vem lamber as feridas.

O nojo, Senhor, a agonia do nojo
para que possamos cuspir sem ressentimentos no rosto
de quem nos cospe no rosto.

Porque o rato pariu uma montanha, Senhor, e como cães
assustados
esperamos o impacto do fogo sobre o fogo.

Porque mantemos os sentidos despertos, Senhor, e esperamos
o resgate, o refúgio e o êxtase.

Porque caminhamos nas trevas com extrema paixão e uma ânsia
poderosa, Senhor,
dai-nos a náusea,
a abundância da náusea sobre o nosso rancor.

Dai-nos o vómito, Senhor, o vómito
carregado de fel da nossa vida violenta,
do nosso amor violento,
da nossa esperança violenta e violentada
pelo preço de um pão e o suor agónico da nossa face.

Recorremos a Ti, Senhor, neste páramo de ódios,
para que nos dês o alívio do vómito letal do nosso desespero,
esta amargura carregada de amargura
que nos lançaram sobre os ombros e tem o peso do mundo.

Com as lágrimas nos olhos, Senhor, e a cabeça coroada
de espinhos, pedimos-Te a libertação do nojo que ocultamos nos
nossos corações,
o nojo intemporal
dos que nos antecederam e que virão depois de nós, o nojo
imensurável que geramos no nosso ventre e ao nosso ventre
voltará sob a forma de cal
purificadora.

Dai-nos o nojo, Senhor, essa flor infecta, sanguinolenta e suja
que há-de desabrochar das nossas dores

em Tua glória

e em nome do asco a que fomos submetidos.


Amadeu Baptista in "Antecedentes Criminais - Antologia Pessoal 1982-2007", Edições Quasi, 2007

Repulsa, de Roman Polanski, 1965

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Funeral

In Memoriam

De todas as vezes que olhei para ti, quais as que realmente te vi ?
Apenas um rosto mais numa sala de aula cheia...
Onde quer que estejas, que lá seja o fim da dor e do vazio.



 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Serás amor...

Serás amor,
um longo adeus que não acaba?
Viver, desde o principio, é separar-se.
Já no primeiro encontro
com a luz e os lábios
o coração conhece a angústia
de ter que estar cego e só um dia.
Amor é o adiamento milagroso
do seu próprio fim:
é prolongar o feito mágico
de que um e um sejam dois, frente
à primeira sentença da vida.
Com os beijos,
com a dor e o peito se conquistam,
em trabalhosas lutas, entre gozos
semelhantes a jogos,
dias, terras, espaços fabulosos,
a grande separação que está à espera,
irmã da morte ou a própria morte.
Cada beijo perfeito afasta o tempo,
lança-o para trás, alarga o mundo estreito
em que um beijo é possível ainda.
Não é ao chegar nem no encontro
que o amor tem o seu cume:
é na resistência a separar-se
que ele se sente, nu, altíssimo, a tremer.
E a separação não é o instante
em que braços ou vozes
se despedem com gestos materiais.
É de antes, de depois.
Se se estreitam as mãos, ou se se abraça,
nunca é para haver separação,
é porque a alma cegamente sente
que a forma possível de estar juntos
é uma despedida longa, clara.
E que o mais certo é o adeus.

Pedro Salinas in "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"

 
L'Année Dernière à Marienbad, de Alain Resnais, 1961

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Longe

Carl Gustav Carus (1789-1869)

Longe
Hei-de acabar por me sentir longe
Longe de tudo

Hei-de pertencer cada vez mais
Ao horizonte

Hei-de ficar ao longe

Barco
Conscientemente afastado
De si próprio

Alberto de Lacerda

terça-feira, 20 de novembro de 2012

The Death of a Fly

There was once a man who disguised himself as a housefly
and went about the neighbourhood depositing flyspecks.
Well, he has to do something hasn’t he? said someone to someone
else.
Of course, said someone else back to someone.
Then what’s all the fuss? said someone to someone else.
Who’s fussing? I’m just saying that if he doesn’t get off
the wall of that building the police will have to shoot him off.
Oh that, of course, there’s nothing so engaging
as a dead fly.
I love dead flies, the way they remind me of individuals
who have met their fate.

Russell Edson


sábado, 17 de novembro de 2012

De longe te hei-de amar

De longe te hei-de amar
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.


Cecília Meireles

Memória, Elihu Vedder


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

The water is wide




The water is wide, I can-not get over
And neither have I, wings to fly
Give me a boat that can carry two
And both shall row, my love and I

A ship there is and she sails the seas
She's loaded deep, as deep can be
But not so deep as the love I'm in
And I know not how, to sink or swim

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Bleeding Hearted Blues

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobra as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
 Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti

            

When you're sad and lonely
Thinking about you only
Feeling disgusted and blue
Ah, your heart is aching
Yes, it's almost breaking
No one to tell your troubles to
That's the time you'll hang your head,
And begin to cry
All your friends forsake you,
Trouble overtakes you
And your good man turns you down
Evil talk about you
Everybody doubt you
And your friends can't be found
Not a soul to ease your pain
You will plead in vain
You've got those bleeding hearted blues
Say baby, tell me what's on your mind
Pretty papa, tell me what's on your mind
You keep my poor heart achin'
I'm worried all the time
I give up every friend that I had
Yes, I give up every friend that I had
I give up my mother
I even give up dear old dad

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

M-360

Aqui estamos, atravessando
sem saber o nosso destino,
à espera que o próprio caminho
o torne evidente (mas não),
somos todos assim metropolitanos (urbanos),
saímos na estação errada,
lemos cabeçalhos, vemos o envelhecimento
nos rostos que connosco através
de túneis dantescos (cliché),
e pensamos (ou dizemos agora que pensámos)
que há um plano que nos ultrapassa (rodoviário),
um plano (subterrâneo)
de linhas que se cruzam com as linhas
da mão, interceptadas em cores
e com o guarda-roupa do nosso
tempo (capitalismo tardio),
atravessamos (atrasados), sob o sol
que imaginamos em cima (platónico),
interrompidos pelo parêntesis irónico
da consciência que talvez queira fazer
a diferença mas não faz nada (nada).

Pedro Mexia

M-360, Rui Palha

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Foi numa noite de desarrumo do luar

Foi numa noite de desarrumo do luar
que de súbito compreendi
porque toda a gente a chorar
se ria de ti.

Riam-se os anhos
a comerem flores...
E riam-se os rebanhos
nos olhos dos pastores.

Riam-se os enforcados a bailar nas traves
de língua de fora.
E riam-se nas caves
os beleguins da penhora.

Ria-se o ranger da boca dos ventos
na fome das barcas...
E riam-se os avarentos
com o sol nas arcas.

Ria-se o pregar dos pregos
nos caixões dos hospícios.
E riam-se os cegos
à beira dos precipícios.

Riam-se as lágrimas das mães
a embalarem a morte dos filhos.
E riam-se os cães
em berços de junquilhos.

Riam-se os gigantes verdadeiros
em surdas vozes...
E riam-se os carneiros
... de serem ferozes.

Ria-se a pobre gente
sem alma nem pão
no incêndio de pó dos caminhos...
E principalmente - ah ! e principalmente ! -
riam-se num furacão
os donos dos moinhos.


José Gomes Ferreira, "Poesia I"





terça-feira, 30 de outubro de 2012

Estou certo de que não existes

Estou certo de que não existes
e no entanto oiço-te todas as noites

invento-te às vezes com minha vaidade
ou minha desolação ou minha modorra

do infinito mar vem o teu assombro
escuto-o como um salmo e no entanto

tão convencido estou de que não existes
que te aguardo no meu sonho de logo


Mario Benedetti
(trad.Virgínia Jorge)

 

domingo, 28 de outubro de 2012

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A verdade era bela

A verdade era bela,
como vinha nos livros.
À beirinha das águas
a verdade era bela.

Os que deram por ela
abriram-se e contaram
que a verdade era bela,

Quase todos se riram.
Os que punham nos livros
que a verdade era bela,
muito mais do que os outros.

A verdade era bela
mas doía nos olhos
mas doía nos lábios
mas doía no peito
dos que davam por ela.

Sebastião da Gama

Ferdinand Hodler, A Verdade II

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Desprezada

"Desprezada das relações humanas (eram tão difíceis as pessoas), fora muitas vezes ao jardim receber das suas flores uma paz que os homens e as mulheres não lhe davam nunca."

Virginia Woolf, Mrs. Dalloway


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carta do Tempo Triste para a Maria Virgínia

Rui Palha


Eu bem queria não te dizer apenas
que, na cidade, são sete horas precisas
e os eléctricos conduzem gente
circunspecta e cansada.

Eu gostaria de dizer-te
que coisas sublimes tinham acontecido
ou, pelo menos, falar-te
de pequenos mas raros sucessos.

Se tudo fosse tão simples e sereno
como a descuidada juventude dos pássaros,
a todos os momentos eu poderia
enviar palavras naturais e frescas
ao teu coração aberto e vasto.

Difícil, então, só seria o silêncio
e dizendo teu nome estabeleceria
o rompimento absoluto com as estreitas,
agrestes e de sempre palavras sem futuro.

Poderia depois dizer-te coisas brandas
na universal linguagem 
que tornasse concordes pássaros e estrelas
com a circulação ritmada do teu sangue.

Poderia falar-te de coisas que não estas,
de outra gente, não esta que ora segue
sonolenta e resignada pelas ruas.
Esta gente que não tem um sonho a embalar,
mas filhos, muitos filhos,
esta gente sem gritos nem revoltas,
mas sorrisos humildes e postiços,
esta pobre gente para quem são sete horas
irremediavelmente.

Ah! Maria Virgínia, pudesse eu
dizer-te francamente: «Não há perigo,
nada importam as horas,
vamos calmos e felizes pela cidade,
e o tempo não marca porque tudo é perfeito.»

Sim, eu queria dizer-te só palavras
harmónicas e novas.
Sim, eu queria que o tempo fosse
o mesmo dos insectos e dos peixes,
dos seres simples mas donos dos seus dias.
Exactamente o propício tempo
para te enviar as mais belas notícias
que tu guardarias juntamente
com a mais pura alegria.

Ah! pudesse eu dizer-te
o que dirão os homens
 livres para sempre destas amargas horas.


António Rebordão Navarro

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

I am not I


I am not I.
I am this one
walking beside me whom I do not see,
whom at times I manage to visit,
and whom at other times I forget;
the one who remains silent while I talk,
the one who forgives, sweet, when I hate,
the one who takes a walk when I am indoors,
the one who will remain standing when I die.

Juan Ramon Jimenez


domingo, 14 de outubro de 2012

Devagar, o tempo transforma tudo em tempo

Devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
O ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

Os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

Por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
No entanto, a eternidade existe.

Os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
Os instantes do teu sorriso eram eternos.
Os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

Foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto

domingo, 7 de outubro de 2012

O que é viver?

Heinrich Kuhn c. 1910 - Hill Crest


O que é o caminho?
anúncio de partida
escrito em folhas
que o pó desenhou.

O que é a árvore?
lagoa verde cujas ondas são o vento.

O que é o vento?
alma que não quer habitar o corpo.

O que é um espelho?
uma segunda face
um terceiro olho.

O que é a praia?
colchão para ondas cansadas.

O que é a onda?
imagens em movimento
na tela do mar.

O que é o arco-íris?
corpo de nuvem e
corpo de sol
abraçados arqueados
sobre o corpo da terra.

O que é o horizonte?
espaço que se move sem parar.

O que é o sonho?
elevar o real ao nível da fantasia.

O que é a lágrima?
guerra perdida pelo corpo.

O que é o desespero?
descrição da vida na língua da morte.

O que é a angústia?
vincos na seda dos nervos.

O que é a coincidência?
fruto na árvore do vento
caindo entre as mãos sem se saber.

O que é o não sentido?
doença que mais se propaga.

O que é o fracasso?
musgo boiando no lago da vida.

O que é a nudez?
o começo do corpo.

O que é um beijo?
colheita visível do invisível.

O que é um abraço?
o terceiro dos dois.

O que é uma cama?
noite dentro da noite.

O que é a morte?
carro que leva
do útero da mulher
ao útero da terra.

O que é a escuridão?
o ventre de uma mulher
grávida do sol.

O que é a poesia?
navios que navegam, sem portos.

O que é a metáfora?
asa aliviando no peito das palavras.

O que é a memória?
casa habitada só
por coisas ausentes.

O que é a surpresa?
pássaro que escapou
da gaiola da realidade.

O que é o umbigo?
meio caminho
entre
dois paraísos.

O que é a melancolia?
anoitecer
no espaço do corpo.

O que é o anoitecer?
discurso de despedida.

O que é o sentido?
início do não sentido
e seu fim.

O que é viver?
caminhar sem pausa
rumo ao anoitecer.


trechos do poema "Guia para viajar pelas florestas do sentido" de Adonis


 

sábado, 6 de outubro de 2012

Deixai os doidos governar...

Deixai os doidos governar entre comparsas!
Deixai-os declamar dos seus balcões
Sobre as praças desertas!
Deixai as frases odiosas que eles disserem,
Como morcegos à luz do Sol,
Atónitas baterem de parede em parede,
Até morrerem no ar
Que as não ouviu
Nem percutiu
À distância da multidão que partiu!
Deixai-os gritar pelos salões vazios,
Eles, os portentosos mais que os mares,
Eles, os caudalosos mais que os rios,
O medo de estar sós
Entre os milhares
De esgares
Reflectidos nos colossais
Cristais
Hílares
Que a sua grandeza lhes sonhou!


Reinaldo Ferreira (1922-1959)


 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Fuga

Numa nuvem de esquecimento
passar a vida,
sem mágoas, sem um lamento,
água correndo, impelida
pelo vento.

Ouvir a música do instante que passa
e recolhê-la no coração,
olhos fechados à dor e à desgraça,
os ouvidos atentos à canção
do instante que passa.

Beber a luz doirada que irradia
dos vastos horizontes,
e ver escoar-se o dia
entre pinhais e montes...
Doce melancolia.

Esquecer todas as agruras
que lá vão
e este negro mar de desventuras
em que voga ao sabor de torvas ondas
meu coração.


Luís Amaro

Istvan Sandorfi



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Partiu-se o Sol

Partiu-se o sol
entre nuvens de cobre.
Dos montes azuis chega um ar sonoro.
No prado do céu,
entre flores de estrelas,
a lua vai em crescente
como um garfo de ouro.

Pelo campo (que espera os tropéis de almas),
vou carregado de pena,
pelo caminho só;
porém o meu coração
um raro sonho canta
de uma paixão oculta
a distância sem fundo.

Ecos de mãos brancas
sobre a minha fronte fria,
paixão que se madurou
com pranto de meus olhos!

Federico Garcia Lorca

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Não há devassidão maior...

Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.
A ousadia de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos factos nus,
o tactear indecente de temas delicados,
a desova das ideias – é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
juntam-se aos pares, triângulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)

Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória (…)

É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”


wislawa szymborska, opinião sobre pornografia

Alphaville, de Jean-Luc Godard, 1965

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A Gente Vai Continuar

Terry St. John

Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

domingo, 23 de setembro de 2012

Sós a vida inteira

"Há pessoas que nascem para serem sós a vida inteira. Eu, por exemplo. (...) Frequentemente me assusto, pensando que a vida vai acabar sem que eu encontre um grande amor ou uma grande amizade, ou mesmo uma grande vocação que justifique esse isolamento."

"Mas gosto, gosto das pessoas. Não sei me comunicar com elas, mas gosto de vê-las, de estar a seu lado, saber suas tristezas, suas esperas, suas vidas."

Caio Fernando Abreu, in Limite Branco, 1967



Here They Used to Build Ships

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Renascer

"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."

"Vai passar,tu sabes que vai passar.Talvez não amanhã,mas dentro de uma semana, um mês ou dois,quem sabe?O verão está aí, haverá sol quase todos os dias,e sempre resta essa coisa chamada¨impulso vital. Pois esse impulso às vezes cruel,porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e,de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como "estou contente outra vez"..."

Caio Fernando Abreu, in Ovelha Negra




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Não sou…

Não sou prisioneira do tempo
Nem ancoro meus sonhos
No solo árido da minha vida medíocre.
Deixo meus olhos flutuarem
Entre céus e infernos
Que a poesia me leva.
Procuro a jóia rara
De um sorriso único
Repleto de angústia e surpresa.
Navego obscura entre
meus medos e meus desejos
sem ter certeza de nada.
Que venha a vida, então,
E penetre em mim
Como um punhal
Rasgando minhas dúvidas
Cortando as amarras
Que me prendem ao possível.
Pertenço a quem me possuir,
Sou do mundo.
Sou minha vida.
Sou o espelho do que jamais serei.

Cláudia Marczak

Sergio Larrain, Villalba, Sicília 1959

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Sair da concha...



Oh what should I do with this empty shell of mine
As empty as the hands that swing at my side
And what should I do with this watch here of mine
When reading the hands only seems to slow the time

And what should I be with so little left of me
When over there is you and all the rest of me
Well I could be the maid that wishes away the days
But time spent waiting isn't my time wasted

And what should I do when everything is cut
My heart may be halved by you but broken I am not
And what should be done when all I have is none
I will not crawl inside the shell I have become

And what should I do with this empty shell of mine?
Listen to it closely and hear it singing softly

Florence Henri

domingo, 19 de agosto de 2012

In the summer

In the summer
I stretch out on the shore
And think of you
Had I told the sea
What I felt for you,
It would have left its shores
Its shells,
Its fish,
And followed me.

Nizar Qabbani

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Férias de mim

Les Vacances de Mr. Hulot, de Jacques Tati, 1953

terça-feira, 17 de julho de 2012

Na luz e na sombra

Saul Leiter


“I spent a great deal of my life being ignored. I was always very happy that way. Being ignored is a great privilege. That is how I think I learnt to see what others do not see and to react to situations differently. I simply looked at the world, not really prepared for anything.” 

Saul Leiter

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cânticos - IX

Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo,
Pelo teu corpo, que enlouqueceu.

Cecília Meireles



Aria - Balanescu Quartet

terça-feira, 3 de julho de 2012

Eu ontem vi-te...

Eu ontem vi-te...
Andava a luz
do teu olhar,
que me seduz,
a divagar
em torno de mim.
E então pedi-te,
não que me olhasses,
mas que afastasses,
um poucochinho,
do meu caminho,
um tal fulgor.
De medo, amor,
que me cegasse,
me deslumbrasse
fulgor assim.

Ângelo de Lima






















Erwin Blumenfeld, Line On Face, c. 1947-49

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Espelho e a Máscara

Herbert List, The Spirit of Lycabettus, Atenas 1937

“Travada a batalha de Clontarf, em que o Norueguês foi humilhado, o Alto Rei falou com o poeta e disse-lhe:
- As proezas mais claras perdem o brilho se não forem cunhadas em palavras. Quero que cantes a minha vitória e o meu louvor. Serei Eneias e tu o meu Virgílio.
Julgas-te capaz de deitar mãos a esta empresa que a nós dois fará imortais?
- Julgo que sim, Rei - disse o poeta.
- Sou o Ollan. Durante doze Invernos cursei as disciplinas da métrica. De memória sei as trezentas e sessenta fábulas que são a base da verdadeira poesia. Os ciclos de Ulster e Munster estão nas cordas da minha harpa. As leis autorizam-me a prodigalizar as vozes mais arcaicas do idioma, e as mais complicadas metáforas. Domino a escrita secreta que defende a nossa arte do exame indiscreto do vulgo. Posso celebrar os amores, os roubos de gado, as navegações, as guerras. Conheço as linhagens mitológicas de todas as casas reais da Irlanda. Domino as virtudes das ervas, a astrologia judiciária, as matemáticas e o direito canónico. Num certame público derrotei os meus rivais. Adestrei-me na sátira que produz enfermidades na pele, incluindo a lepra. Sei manejar a espada, como provei na tua batalha. Só uma coisa ignoro: a forma de agradecer a honra que me dás.

O Rei, que facilmente se cansava com discursos compridos e alheios, disse aliviado:
- Estou farto de saber essas coisas. Acabam de afirmar-me que o rouxinol já cantou na Inglaterra. Quando passarem as chuvas e neves, quando o rouxinol regressar das suas terras do Sul, hás-de recitar o teu louvor perante a corte e o Colégio dos poetas. Dou-te um ano inteiro. Vais limar cada letra e cada palavra. A recompensa, já sabes, não será indigna da minha tradição real nem das tuas inspiradas vigílias.
- Rei, a melhor recompensa é ver o teu rosto - disse o poeta que também era um cortesão.
Fez as suas reverências e saiu a entrever, já, alguns versos.
Cumprido o prazo, que foi de epidemias e rebeliões, apresentou o panegírico.
Declarou-o com segurança lenta, sem deitar uma olhadela, sequer, ao manuscrito.
O Rei ia aprovando com a cabeça. Todos lhe imitavam o gesto, mesmo os que se aglomeravam nas portas e nem uma palavra decifravam.

Por fim o Rei falou.
- Aceito o teu trabalho. É outra vitória. Usaste cada vocábulo na sua acepção genuína e cada substantivo segundo o epíteto que os primeiros poetas lhe deram. Em todo o louvor não há uma única imagem que os clássicos não tenham usado. A guerra é o formoso tecido de homens e a água da espada é o sangue. O mar tem um deus próprio e as nuvens predizem o porvir. Manejaste com destreza a rima, a assonância, as quantidades, os artifícios da douta retórica, a sábia alteração da métrica. Se a literatura da Irlanda se perdesse toda - omen absit - permitiria a tua ode clássica reconstituí-la sem nenhuma falta. Trinta escribas vão transcrevê-la doze vezes.
Fez-se um silêncio e prosseguiu:

- Tudo está bem, apesar de não ter acontecido nada. O sangue não corre mais depressa nos pulsos. As mãos não se agarraram aos arcos. Ninguém empalideceu. Ninguém deu um grito de guerra ou expôs o seu peito aos Vikings. No prazo de um ano, poeta, havemos de aplaudir outro louvor. Em sinal da nossa aprovação toma este espelho, que é de prata.

- Dou graças e compreendo - disse o poeta.

As estrelas do céu retomaram o seu claro curso. Nos matagais saxónicos o rouxinol cantou de novo e o poeta voltou com o seu códice, menos comprido do que o anterior.
Não o repetiu de memória; leu-o com visível insegurança, omitindo certas passagens como se não entendesse nada delas, ou não quisesse profaná-las. A página era estranha. Não se tratava de uma descrição da batalha, era a batalha. Na sua desordem bélica agitava-se o Deus que é Três e Um, os numes pagãos da Irlanda e os que iriam guerrear, centenas de anos depois, no princípio da Edda maior. A forma não era menos curiosa. Um substantivo singular podia concordar com um verbo no plural. As preposições eram alheias às normas comuns. A aspereza alternava com a doçura. As metáforas eram arbitrárias, ou assim pareciam.

Trocando o Rei algumas palavras com os homens de letras que o rodeavam, falou desta forma:
- Do teu primeiro louvor pude afirmar que era um feliz resumo de tudo o que a Irlanda já cantara. Este supera o que ficou para trás e também o aniquila. Suspende, maravilha e deslumbra. Não vão merecê-lo os ignaros mas sim os doutos, os raros. A custódia do exemplar único será um cofre de marfim. Da pena que produziu obra tão eminente podemos, todavia, esperar outra mais alta.Com um sorriso acrescentou:

- Somos figuras de uma fábula e justo é recordar que nas fábulas domina o número três.
O poeta atreveu-se a murmurar:
- As três graças dos feiticeiros, as tríades e a indubitável Trindade.
Prosseguiu o Rei:
- Como prémio da nossa aprovação, toma lá esta máscara de ouro.
- Dou graças e compreendo - disse o poeta.

Mais um aniversário passou e as sentinelas do palácio avisaram que o poeta aparecia sem nenhum manuscrito. Com algum espanto, o Rei olhou para ele; era quase outro.
Qualquer coisa que não o tempo sulcara-lhe e transformara-lhe as feições. Os seus olhos pareciam ver muito longe, ou ter cegado. O poeta pediu para trocar com ele algumas palavras. Os escravos abandonaram a câmara.

- Não fizeste a ode? - perguntou o Rei.
- Fiz - disse com tristeza o poeta.
- Oxalá Cristo Nosso Senhor mo tivesse proibido.
- Podes repeti-la?
- Não me atrevo.
- Dou-te a quantia que precisas - declarou o Rei.
O poeta disse o poema. Era de uma só linha.
Sem conseguir pronunciá-lo em voz alta, o poeta e o seu Rei saborearam-no como uma oração secreta, ou uma blasfémia. O Rei não estava menos maravilhado e atribulado do que o outro. Olharam-se, muito pálidos.

- Nos anos da minha juventude - disse o Rei - pus-me a navegar rumo ao ocaso. Numa ilha vi lebréus de prata que matavam javalis de ouro. Noutra alimentámo-nos com o aroma de maçãs mágicas. Noutra vi muralhas de fogo. Na mais afastada de todas sulcava o céu um rio em abóbada e declive cujas águas abundavam de peixes e barcos. Isto são maravilhas mas não se comparam com o teu poema que as contém todas, pode dizer-se.
Que feitiço to concedeu?

- Acordei de madrugada a proferir palavras que ao princípio não compreendi - disse o poeta. - Essas palavras eram um poema. Senti que tinha cometido um pecado, talvez aquele que o Espírito não perdoa.
- Aquele que compartilhamos agora - murmurou o Rei.
- O de termos conhecido a Beleza, que é um dom vedado aos homens. Cabe-nos expiá-lo.
Dei-te um espelho e uma máscara de ouro; tenho aqui a terceira prenda, que é a última.
Na mão direita pôs-lhe uma adaga.

Do poeta sabemos que se matou, quando saiu do palácio; do Rei que é mendigo e corre os caminhos da Irlanda, seu reino de outrora, sem ter voltado a repetir o poema.

O Espelho e a Máscara", in O Livro de Areia, de Jorge Luís Borges

quarta-feira, 27 de junho de 2012

I don't think about you anymore but I don't think about you any less

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!


Federico Garcia Lorca


sábado, 23 de junho de 2012

Soneto Do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.


Vinicius de Moraes



Greta Garbo em "The Mysterious Lady", 1928

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Private World

“I feel so intensely the delights of shutting oneself up in a little world of one’s own, with pictures and music and everything beautiful.”

Virginia Woolf,The Voyage Out


Vivien Leigh em Um Eléctrico Chamado Desejo, de Elia Kazan, 1951

domingo, 17 de junho de 2012

Quem Sonha Mais?

Quem sonha mais, vais-me dizer —
Aquele que vê o mundo acertado
Ou o que em sonhos se foi perder?

O que é verdadeiro? O que mais será —
A mentira que há na realidade
Ou a mentira que em sonhos está?

Quem está da verdade mais distanciado —
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?

A pessoa que é um bom conviva, ou esta?
A que se sente um estranho na festa?

Alexander Search, in "Poesia"



















Vivien Leigh em Um Eléctrico Chamado Desejo, de Elia Kazan, 1951



quarta-feira, 13 de junho de 2012

I don't remember

Londres 1935 anónimo

































I don’t remember
lighting this cigarette
and I don’t remember
if i’m here alone
or waiting for someone.

Leonard Cohen

terça-feira, 29 de maio de 2012

Não vejo mais…

Doug Wade Zinn


























Não vejo mais sentido
Naquilo que tenho sentido.
Não flutuo em águas rasas.
Mergulho.
A escuridão e o peso do oceano
Me fascinam e apavoram.
Até onde posso ir?
E se eu não souber como voltar?
Não há farol que me guie.
Não há razões.
A profundeza do oceano é meu abrigo.
Seguro e solitário.
Abissal sem fim.


Cláudia Marczak


segunda-feira, 28 de maio de 2012

One look

The eyes are one of the most powerful tools a woman can have. With one look, she can relay the most intimate message. After the connection is made, words cease to exist.

Jennifer Salaiz

If, de Lindsay Anderson, 1968

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Tired

You are tired,
(I think)
Of the always puzzle of living and doing;
And so am I.

Come with me, then,
And we'll leave it far and far away -
(Only you and I, understand!)

You have played,
(I think)
And broke the toys you were fondest of,
And are a little tired now;
Tired of things that break, and - 
Just tired.
So am I.

But I come with a dream in my eyes tonight,
And I knock with a rose at the hopeless gate of your heart - 
Open to me!
For I will show you the places Nobody knows,
And, if you like,
The perfect places of Sleep.

ee cummings


Asas do Desejo, de Wim Wenders, 1987

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Mistério

Eu estou em ti quando me esqueces.
E tu em mim, gota no cálice,
Quando adormeces sossegada...

Quando adormeces, sossegada,
O teu olhar vai nos meus olhos
Poisar em tudo que não vejo...

E quando sonhas (nunca o saibas!)
Sou eu que volto à minha infância
Que dorme em ti - gota no cálice...


Cristovam Pavia (1933-1968)



The Fall - Frankie Rose

terça-feira, 15 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Impossível descrição

Entre as vigas duma sala,
ou entre o céu e a terra?

A dimensão que me encerra,
nunca sei qualificá-la.

Sei que, por vezes, me ausento
para algum furtivo mal:
inseguro pedestal
onde, aos poucos, eu me invento.

E se cada espelho me retrata
duma forma diferente,
não me levem a nenhum psiquiatra;
que eu não estou doente
nem preciso da droga que me trata.

Se é esse o problema,
não é essa a solução.
Nem me levem ao cinema,
apenas porque estou triste.
Este mal do coração
sempre persiste
e insiste.

Este mal do coração!
Isto que sinto antes de sentir dor...
Esta pré-dorida sensação
de cesuras, ritmo, rima,
música, dança, folclore...
e esta fúria suprema
do momento criador.

Entre as vigas duma sala,
ou entre o céu e a terra?

A dimensão que me encerra,
nunca sei qualificá-la.


Outubro de 1953

Fernanda Botelho
In As Folhas de Poesia Távola Redonda, Boletim Cultural VI Série Nº11 Outubro de 1988, Fundação Calouste Gulbenkian










quarta-feira, 9 de maio de 2012

Into the night

















Erwin Blumenfeld, Minor Spotlight, NY c. 1955


The eye is always caught by light, but shadows have more to say.

Gregory Macguire


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Variações sobre "O Poema Pouco Original do Medo" de Alexandre O'Neill

Os ratos invadiram a cidade
povoaram as casas os ratos roeram
o coração das gentes.
Cada homem traz um rato na alma.
Na rua os ratos roeram a vida.
É proibido não ser rato.

Canto na toca. E sou um homem.
Os ratos não tiveram tempo de roer-me
os ratos não podem roer um homem
que grita não aos ratos.
Encho a toca de sol.
(Cá fora os ratos roeram o sol).
Encho a toca de luar.
(Cá fora os ratos roeram a lua).
Encho a toca de amor.
(Cá fora os ratos roeram o amor).

Na toca que já foi dos ratos cantam
os homens que não chiam. E cantando
a toca enche-se de sol.
(O pouco sol que os ratos não roeram).

Manuel Alegre, Obra Poética

Metropolis, de Fritz Lang, 1927
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