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sábado, 30 de março de 2013
Mudar de Vida
É tudo tão pequeno esta manhã.
As aves acordaram surpreendidas,
a voarem nos meus olhos
curvas fatigadas
de Primavera morta…
As mãos caem-me secas
ao longo do corpo
em folhas recortadas
de árvore de solidão…
As raízes sugam-me nas veias
o sangue da terra
das manhãs de sussurro…
Sim. Hoje só eu existo…
Eu com este remorso de gota de água
que se recusa a cair no mar
─ para se sentir maior
longe da cólera comum da Tempestade.
José Gomes Ferreira
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Foi numa noite de desarrumo do luar
Foi numa noite de desarrumo do luar
que de súbito compreendi
porque toda a gente a chorar
se ria de ti.
Riam-se os anhos
a comerem flores...
E riam-se os rebanhos
nos olhos dos pastores.
Riam-se os enforcados a bailar nas traves
de língua de fora.
E riam-se nas caves
os beleguins da penhora.
Ria-se o ranger da boca dos ventos
na fome das barcas...
E riam-se os avarentos
com o sol nas arcas.
Ria-se o pregar dos pregos
nos caixões dos hospícios.
E riam-se os cegos
à beira dos precipícios.
Riam-se as lágrimas das mães
a embalarem a morte dos filhos.
E riam-se os cães
em berços de junquilhos.
Riam-se os gigantes verdadeiros
em surdas vozes...
E riam-se os carneiros
... de serem ferozes.
Ria-se a pobre gente
sem alma nem pão
no incêndio de pó dos caminhos...
E principalmente - ah ! e principalmente ! -
riam-se num furacão
os donos dos moinhos.
José Gomes Ferreira, "Poesia I"
que de súbito compreendi
porque toda a gente a chorar
se ria de ti.
Riam-se os anhos
a comerem flores...
E riam-se os rebanhos
nos olhos dos pastores.
Riam-se os enforcados a bailar nas traves
de língua de fora.
E riam-se nas caves
os beleguins da penhora.
Ria-se o ranger da boca dos ventos
na fome das barcas...
E riam-se os avarentos
com o sol nas arcas.
Ria-se o pregar dos pregos
nos caixões dos hospícios.
E riam-se os cegos
à beira dos precipícios.
Riam-se as lágrimas das mães
a embalarem a morte dos filhos.
E riam-se os cães
em berços de junquilhos.
Riam-se os gigantes verdadeiros
em surdas vozes...
E riam-se os carneiros
... de serem ferozes.
Ria-se a pobre gente
sem alma nem pão
no incêndio de pó dos caminhos...
E principalmente - ah ! e principalmente ! -
riam-se num furacão
os donos dos moinhos.
José Gomes Ferreira, "Poesia I"
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Cabaré - IV
![]() |
| Rudolf Koppitz |
Todos os punhais que fulgem nos gritos,
todas as fomes que doem no pão,
todo o suor que luz nas estrelas,
todas as cruzes no peso dos braços,
todos os crimes nas penas das pombas,
todas as lanças nos dedos de reza,
todas as feridas que cheiram nos cravos,
todas as sedes com asas nas nuvens,
toda a inveja na limpidez dos espelhos,
todos os soluços para ressuscitar os filhos mortos,
todos os desejos nos alçapões do Frio,
todos os assassinos que andaram ao colo das mães,
todos os olhos pegados nas jóias das montras,
todos os atestados de pobreza com lágrimas de carimbo,
todos os murmúrios do sol, no quarto ao lado, à hora da morte...
Tudo, tudo, tudo
se condensou de repente
numa nuvem negra de milhões de lágrimas
a humilharem-me de ternura
- eu que quero ser alheio, duro, indiferente...
... enquanto os Outros dançam, cantam, bebem,
vivem, amam, riem, suam
neste pobre planeta
magoado das pedras e dos homens
onde cresceu por acaso o meu coração no musgo
aberto para a consciência absurda
deste remorso sem sentido.
José Gomes Ferreira, "Poesia - I"
![]() |
| Rudolf Koppitz, 1925 |
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
About the meaning of life # 6
Porque é que este sonho absurdo a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?
Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.
José Gomes Ferreira
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?
Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.
José Gomes Ferreira
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Viver Sempre Também Cansa
Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
José Gomes Ferreira, Militante
Orlando, de Sally Potter, 1992
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
José Gomes Ferreira, Militante
Orlando, de Sally Potter, 1992
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