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terça-feira, 27 de agosto de 2024

Malabarismo

 

O sangue gasta-se, o osso salva-se.

Diz algumas palavras, atira alguma poeira –

Faz a sesta há muito devida

para a queda e decadência.

O futuro não assombra.

Todos os meus grandiosos planos falham frente à morte.

Árvores crescerão, a abundância reinará.

O custo da idade não surpreende.

Palavras duras, segredos suaves.

Todas as pessoas morrem—mas não da mesma forma.

O silêncio é o aplauso dos anjos. Sê feliz.

É o pó que faz o lar,

cada ano infestado por amor e

em cada coração um enfarte.

A alegria das nefárias tarefas insignificantes 

e dos dias desperdiçados, tão atarefado a fazer nada

que toda uma vida toda foi ocupada

por fantasia

ilusão

e malabarismo.

 

Mark Evans

"Este não é o lugar que prometeram"

Tradução: Cobramor

Traça Editora & Edições Fantasma, 2024

sábado, 13 de abril de 2024

A minha mão acaricia o teu sonho

A minha mão acaricia o teu sonho.
E para melhor o acariciar
converte-se também ela em sonho.

Mas então o teu sonho
converte-se numa mão,
para poder corresponder a essa carícia.

O amor será sempre
o cruzar de uma mão que vai
com outra mão que vem?

Ou será apenas
o passar de dois sonhos que se cruzam?


Roberto Juarroz in A Árvore Derrubada Pelos Frutos 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

O Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo, 
não de cultivo alheio ou de presença. 
Nada exige nem pede. Nada espera, 
mas do destino vão nega a sentença. 

O amor antigo tem raízes fundas, 
feitas de sofrimento e de beleza. 
Por aquelas mergulha no infinito, 
e por estas suplanta a natureza. 

Se em toda a parte o tempo desmorona 
aquilo que foi grande e deslumbrante, 
o antigo amor, porém, nunca fenece 
e a cada dia surge mais amante. 

Mais ardente, mas pobre de esperança. 
Mais triste? Não. Ele venceu a dor, 
e resplandece no seu canto obscuro, 
tanto mais velho quanto mais amor. 


Carlos Drummond de Andrade, in 'Amar se Aprende Amando' 

quarta-feira, 4 de março de 2020

Quando um sonho morre

2

a dizer outra vez

se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

palavras rançosas a revolver outra vez no coração

amor amor amor pancada da velha batedeira
pilando o soro inalterável
das palavras

aterrorizado outra vez

de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir

eu e todos os outros que te hão de amar

se te amarem

3


a não ser que te amem




Samuel Beckett, As escadas não têm degraus 3, trad. Miguel Esteves Cardoso, Livros Cotovia, 

março 1990

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Eu preciso de silêncio

Eu preciso de silêncio
e solidão
e de um traje de linguagem bem ajustado.
Eu preciso de um segredo
e de uma sugestão de realidade muito firme.
A minha função agora
é tentar me libertar
das minhas próprias formulações.

É um luto viver.
Se não entendermos assim
nunca seremos felizes.

Kristina Lugn (trad. de Fernanda Sarmatz Åkesson)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O menino louco

Ao menino louco da casa ao lado
tinham-no preso. À noite ouvíamo-lo
a uivar. E eu sussurrava à minha almofada:
Obrigado, meu Deus! Ao menos eu estou livre.

O menino louco já não grita.
No entanto o grito acorda-me
nas noites negras sem estrelas.
Então não é o menino. Sou eu.

Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Eu sou o poema

Sou o poema que ninguém escreveu
Sou a carta que sempre se queimou.

Sou o caminho que ninguém tomou
e o som que nunca soou.

Sou a oração dos lábios mudos
Sou o filho de uma mulher não nascida,

uma corda que nenhuma mão estendeu
uma fogueira que ninguém acendeu.

Acordai-me! Redimi-me! Levantai-me já
da terra e disponha, de espírito e corpo e alma!

Mas quando rezo, só respostas incompletas.
Eu sou as coisas que não ocorrem nunca.

Inger Hagerup, Jeg gikk meg vill i skogene, 1939

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Detalhe de uma paisagem invisível de novembro

No meio do país de névoa que se chama eu
há um velho sinal de trânsito sem caminho.

Ali está assinalando com a sua carcomida flecha
até aos pântanos e quilómetros de neblina.

Em vão procuro nomes e sinais.
Nevões e chuvas tudo apagaram.

Ali esteve uma vez o caminho para que me encaminhava.
Quando desapareceu e quando me perdi?

Vou às cegas como um invisual até essa palavra
que me indicaria o caminho da minha casa.

No meio do país de névoa que se chama eu
há um sinal sem caminho que me assusta.


Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Zärtliche Nacht

Zärtliche Nacht                      Tender night
Es kommt die Nacht                There comes the night
da liebst du                      when you love
nicht was schön –                 what is not beautiful –
was häßlich ist.                  but ugly.
Nicht was steigt –                What doesn’t rise –
was fallen muß.                       but has to fall.
Nicht wo du helfen kannst –       When you cannot help –
wo du hilflos bist.               but when you are helpless.
Es ist eine zärtliche Nacht       It is a tender night
die Nacht da du liebst            the night when you love
was Liebe                         what love
nicht retten kann.                cannot save.

Hilde Domin, Zärtliche Nacht

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Luz da lâmpada

A lâmpada é igual,
a luz é igual.
Mas a diferença operou-se em mim.
A lâmpada é igual,
a luz é igual.
Mas já não vejo o que via.
Acendia a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes via a imagem d'Ela.
Acendo a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes encontro o vácuo da moldura.
Acendo a lâmpada e nada vejo do que via sempre.
Apago a lâmpada
para criar, na escuridão,
o que não posso encontrar na realidade.
Nunca mais acenderei a lâmpada
porque me quero lembrar da outra luz.


Mário-Henrique Leiria
in Obras Completas II - Poesia

domingo, 22 de setembro de 2019

Poemas de amor e desamor

O amor não existe
ou é invisível e precisa de seres

vivos como tu e eu
para se deixar ver

ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir


§

eu só queria te dizer

que ele chega, que ele existe
que ele chega para todos, ao menos uma única vez
que ele estava aqui na sala
enquanto as cortinas tremulavam na janela aberta
e enquanto eu procurava um lápis
e que ele desapareceu tão safo
quanto o grande amor que tivemos

ele estava aqui, e como determinado cheiro
de determinado cabelo e determinado vestido
que ficou pendurado lá fora num determinado clima bastante húmido
já não estava mais aqui
quando me sentei para escrever

§

Eis-nos aqui. É noite.
Chegamos aqui e desaparecemos de novo,
e feito os amantes nos deixamos

todos vamos nos deixar, todos
como o mundo com certeza também vai nos deixar.
Ou seja lá como é que era mesmo.

A geladeira treme amedrontada na cozinha.
As crianças dormem nas suas camas quentes. Os cérebros ardem
como as metrópoles cada qual debaixo de sua abóbada escura.


Geir Gulliksen, trad. Luciano Dutra

segunda-feira, 11 de março de 2019

Tudo isso há de começar mais uma vez

Tudo isso há de começar mais uma vez
o livro que eu levava pra todo lado e lia
vai ser lido por outro alguém. Alguém há de aprender
a contar até dez pela primeira vez, depois até cem
e alguém há de aprender os dias da semana e assim há de saber
que a sexta-feira é o melhor e que o domingo é o pior dia da semana
porque domingo é o dia em que só fazemos esperar pela segunda-feira
e com a segunda-feira até a quinta-feira é impossível contar
se a gente trabalha o dia inteiro e fica sentada numa cadeira de noite
Porém, mesmo assim tudo isso há de começar mais uma vez:
alguém há de sentar na escadaria sob essa luz sarapintada
tentando escrever um poeminha num pedaço de papel
e alguém há de aprender a pedalar,
e alguém há de ler que o universo encontra-se em expansão
e sobre sóis que só sabem seguir explodindo
e alguém há de estudar hebraico antigo e ornitologia
e passear à noitinha com as mãos no bolso do casaco
sabendo que há de morrer, mas não já já
antes outro alguém há de se apaixonar por ele, tomara,
e depois alguém há de deixá-lo, mas não já já
pois tudo isso há de começar mais uma vez: alguém há de ler
Pablo Neruda pela primeira vez, e Osip Mandelstam
e Bertholt Brecht, alguém há de ler Wisława Szymborska
e alguém há de descobrir quantos somos nós todos que vivemos nesse mundo
e de repente há de entender que cada um de nós é um indivíduo
mesmo que não haja individualismo suficiente para todos
e mesmo que não seja verdade que todas as pessoas
têm o mesmo valor, alguém há de aprender isso e crer nisso
até que não seja mais possível seguir crendo nisso
pois isso não parece ser verdade
pois isso não parece possível de se realizar
mesmo que não seja possível crer em mais nada além do facto
de a escuridão escalar os vários andares
e de a escuridão um dia chegar aos teus pés
e de tu um dia vadear nela e de ela chegar até às tuas mãos
e gritar na escuridão e beber a escuridão, não porque tens sede
mas porque não há mais nada senão ela, e porque aquela velha
luz sarapintada que não havia era suficiente para todos
não é mesmo? mas tudo isso há de ser repetido por outro alguém
e a luz dispara sem parar cruzando a escuridão
de 300.000 quilómetros e leva menos tempo para te achar do que um gato esquelético
enquanto estás ali parado tentando achar as chaves no bolso do casaco
e tudo o que te acontece acontece creias ou não creias que seja verdade

Geir Gulliksen, trad. Luciano Dutra


I died in a good mood

For whatever we lose 
(a you or a me) 
it’s always ourselves 
we find in the sea.

 - E.E. Cummings


Sophie Calle, I died in a good mood, 2013

Motivo Antigo

Mar claro,
tranquila água
– por meu sorriso
de mágoa.

Céu longo,
nuvem redonda
– por meu olhar
de sombra.

Caminho andado,
areia rude
– por meu rosto
de amargura.


Glória de Sant’Anna in Livro de Água, 1961

Pouco a pouco

Pouco a pouco me esqueço, e não sei nada.
Assim será a morte, e o que da morte
é sono e dor aguda que me crispa plácido
em sonhos dissolvidos sem anseio ou mágoa.

Este ficar de longe, num cansaço;
o ouvir das vozes como outrora infância;
o estar-se imóvel mais, e devagar
perder, um após outro, o gosto a um gesto

mesmo pensado nesta horizontal
que alastra entre o passado e coisa alguma.
Este não ter senão a solidão
como silêncio e treva finalmente aceites.

A vida tão vivida e desejada,
o ser como o fazer, o sexo em tudo visto,
as coisas e as palavras possuídas,
tudo se não dissolve mas se afasta
alheio e sem saudade. Nem repouso
ou calmo abjurar da fúria amarga.
Apenas não sei nada, não recordo nada,
já nada quero, e aos outros deixo tudo.

Jorge de Sena


Anatol Knotek

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

A si mesmo

Repousa para sempre, 
meu exausto coração. Morto é o engano extremo 
que eu supusera eterno. É morto. E sinto 
que em nós de enganos caros 
a mais da esp'rança, o desejar é extinto. 
Repousa. Já bastante 
hás palpitado. Coisa alguma vale 
o teu bater, nem de suspiros é digna 
a terra. Tédio amargo
a vida, e nada mais; e lama é o mundo.
Quieto, pois. Desespera
por uma última vez. À raça humana o fado
não deu mais que o morrer. Agora te despreza
a natureza, o brutal
poder que, oculto, contra nós impera,
e a infinda vaidade do que existe.

Giacomo Leopardi

Ghismonda com o coração de Guiscardo (detalhe), Bernardino Mei, c. 1650

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Melody Noir

Quem é esta mulher, 
a sempre triste,
que vive no meu coração? 
Quis conquistá-la mas não consegui.

Adornei-a com grinaldas
e cantei em seu louvor
Por um momento
bailou o sorriso no seu rosto, 
mas logo se desvaneceu.

E disse-me cheia de pena: 
— A minha alegria não está em ti.

Comprei-lhe argolas preciosas, 
abanei-a com leques recamados de diamantes, 
deitei-a em cama de oiro 
Bateu as pálpebras 
como um relâmpago de alegria
que logo se apagou.

E disse-me cheia de pena:
— Não está nessas coisas a minha alegria.

Sentei-a num carro de triunfo, 
e passeei-a por toda a terra. 
Milhares de corações conquistados
caíram humildes a seus pés, 
e as aclamações reboaram pelo céu 
Durante um momento
brilhou o orgulho nos seus olhos, 
mas logo se desfez em lágrimas.

E disse cheia de pena:
— Não está na vitória a minha alegria.

Perguntei-lhe:
— Que queres então? 
Respondeu-me:
— Espero alguém 
que não sei como se chama. 
Depois calou-se.

E passa os dias a dizer cheia de pena:
— Quando virá o amado desconhecido?
Quando o conhecerei para sempre?

Rabindranath Tagore


Canta canta mi luna mi luna llena 
Esta melodia que es el abismo dentro de mi 
El abismo dentro de mi 
Mi luna mi luna llena

 

Dream of the Phone Booth

My story’s told in the mis-dial’s
hesitance & anonyms of crank calls,

in the wires’ electric elegy
& glass expanded by the moth

flicker of filament. I call a past
that believes I’m dead. On the concrete

here, you can see where
I stood in rust, lashed to the grid.

On the corner of Pine & Idlewood,
I’ve seen a virgin on her knees

before the angel
of a streetlight & Moses stealing the Times

to build a fire. I’ve seen the city fly
right through a memory & not break

its neck. But the street still needs a shrine,
so return my ringing heart & no one

to answer it, a traveler whose only destination is
waywardness. Forgive us

our apologies, the bees in our bells, the receiver’s
grease, days horizoned

into words. If we stand
monument to anything,

it’s that only some voices belong
to men.


Emilia Phillips


Endeavour, 2017




terça-feira, 22 de janeiro de 2019

I Am!

I am! yet what I am none cares or knows,
My friends forsake me like a memory lost;
I am the self-consumer of my woes,
They rise and vanish in oblivious host,
Like shades in love and death’s oblivion lost;
And yet I am! and live with shadows tost

Into the nothingness of scorn and noise,
Into the living sea of waking dreams,
Where there is neither sense of life nor joys,
But the vast shipwreck of my life’s esteems;
And e’en the dearest — that I loved the best —
Are strange — nay, rather stranger than the rest.

I long for scenes where man has never trod;
A place where woman never smil’d or wept;
There to abide with my creator, God,
And sleep as I in childhood sweetly slept:
Untroubling and untroubled where I lie;
The grass below — above the vaulted sky.


John Clare, 1793-1864

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Um poema sobre aquela que ele jamais encontrou

tens a possibilidade de fazer algo
mas então não o fazes
não sabes por que
não o fazes
apenas deixas de fazer
e bem o sabes
que assim vai ser a tua vida
tua apenas em parte
por tudo que deixou de acontecer
e isso é tão triste
e não apenas para ti
pensas nos bons momentos
e ficas ainda mais triste.

Geir Gulliksen, trad. Luciano Dutra


Anatol Knoteck

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