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segunda-feira, 11 de março de 2019

Pouco a pouco

Pouco a pouco me esqueço, e não sei nada.
Assim será a morte, e o que da morte
é sono e dor aguda que me crispa plácido
em sonhos dissolvidos sem anseio ou mágoa.

Este ficar de longe, num cansaço;
o ouvir das vozes como outrora infância;
o estar-se imóvel mais, e devagar
perder, um após outro, o gosto a um gesto

mesmo pensado nesta horizontal
que alastra entre o passado e coisa alguma.
Este não ter senão a solidão
como silêncio e treva finalmente aceites.

A vida tão vivida e desejada,
o ser como o fazer, o sexo em tudo visto,
as coisas e as palavras possuídas,
tudo se não dissolve mas se afasta
alheio e sem saudade. Nem repouso
ou calmo abjurar da fúria amarga.
Apenas não sei nada, não recordo nada,
já nada quero, e aos outros deixo tudo.

Jorge de Sena


Anatol Knotek

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Um poema sobre aquela que ele jamais encontrou

tens a possibilidade de fazer algo
mas então não o fazes
não sabes por que
não o fazes
apenas deixas de fazer
e bem o sabes
que assim vai ser a tua vida
tua apenas em parte
por tudo que deixou de acontecer
e isso é tão triste
e não apenas para ti
pensas nos bons momentos
e ficas ainda mais triste.

Geir Gulliksen, trad. Luciano Dutra


Anatol Knoteck

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

I was here

Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.

Vasant Abaji Dahake


Anatol Knotek

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