Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Fotografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fotografia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

The sorrows of life are the joys of art

Annalynn Hammond, The Unmoved Mover

 

 

Anna Karina em Une femme est une femme, Jean-Luc Godard, 1961
















Self portrait after crying, Syrie Moskowitz

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, 
pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
pela branda melodia do rumor dos regatos, 
pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
pelos aromas maduros de suaves outonos, 
pela futura manhã dos grandes transparentes, 
pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
abre as portas da História, 
deixa passar a Vida!

Natália Correia, Inéditos

Romualdas Rakauskas

domingo, 29 de dezembro de 2013

Eu sonhava...

Eu sonhava que estava a dormir. Naturalmente, não me deixava enganar, sabendo que estava acordado, até à altura em que, ao despertar, me lembrei de que estava a dormir.

Henri Michaux

Berenice Abbott, Cocteau na cama com máscara, Paris 1927

sábado, 30 de novembro de 2013

Já


já não é hoje?
          não é aquioje?

já foi ontem
          será amanhã?

já quandonde foi?
          quandonde será?

          eu queria um jàzinho que fosse
          aquijá
          tuoje aquijá.


Alexandre O'Neill
Tomai lá do O'Neill, Uma Antologia, Círculo de Leitores, 1986

Nan Goldin, O Abraço, 1980

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Onde porei meus olhos que não veja

Onde porei meus olhos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que para descansar parte me seja?

Já sei como se engana quem deseja,
Em vão amor, firme contentamento:
De que nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.

Mas inda, sobre claro desengano,
Assim me traz esta alma sojigada
Que dele está pendendo o meu desejo...

E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada:
Que, quanto mais me chego, menos vejo!


Diogo Bernardes

Hans Wolf, Streets at night, Paris, 1930s

sábado, 2 de novembro de 2013

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Jacques Henri Lartigue



















Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
... Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.

Sophia de Mello Breyner Andresen


 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O Idiota

O IDIOTA é geralmente competente, moralmente irrepreensível e socialmente necessário. Faz o que tem a fazer sem dúvidas ou hesitações, respeita as hierarquias, toma sempre o partido do bem e acredita religiosamente nas grandes ficções sociais.
A incapacidade de relacionar as coisas, as ideias e as sensações transforma-a ele em força, e como lhe escapam as causas e os fins do que lhe mandaram fazer, fá-lo com prontidão e limpeza, sem introspecções inúteis. Do mesmo modo, como vê no destino o único regulador da vida, acha que se uns dão ordens e outros obedecem é porque todos cumprem misteriosas injunções da providência, as quais é não só inútil, mas criminoso sondar.
O idiota só pode ser bom. Para o mal, precisa-se de imaginação, inteligência discriminativa, espírito científico. Como também não dispõe de virtualidades poéticas e é, portanto, incapaz de se criar a si próprio, idolatra quem o criou: Deus em primeiro de tudo, e depois os pais.
O idiota é um bom cidadão. Sem ele, a sociedade entraria em curto-circuito, incendiada entre os polos do dever heróico e da desobediência revolucionária. Dado ser-lhe vedado apreender o nexo que liga a evolução dos meios de produção à transformação das relações de propriedade acredita de facto que o corolário das novas tecnologias é o reforço da iniciativa privada, da livre empresa e do livre mercado. É o único que acredita nisso e ainda bem. Se ninguém acreditasse, esta sociedade parava. O idiota é todo liberdades.
A idiotia também faz bem às artes, principalmente às audiovisuais. A concentração do idiota numa ideia fixa, torna--o especialmente receptivo às músicas de ritmo simples e batida forte, o que facilita extraordinariamente o comércio discográfico, com todas as vantagens que daí advêm para producers e performers, enfim, para o tecido social. No que diz respeito às artes plásticas, tudo é mais fecundo se não houver interferências entre os olhos e as mãos. As ideias perturbam, turvam o olhar, atrapalham o gesto e, nos casos de ideologite aguda, daltonizam as cores. Sem imagens, uma cabeça vazia endoidece.
Embora para um idiota seja uma desvantagem não saber que o é, normalmente ninguém lho diz: segundo Brecht, «tornar-se-ia vingativo como todos os idiotas». Aliás, o mesmo Brecht diz que ser idiota não é grave: «É assim que você poderá chegar aos 80 anos. Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem. E então na política!»
O idiota puro é o idiota jovem. Com o tempo, torna-se cínico, adquire hábitos esquisitos, sempre à procura do que lhe serve ou lhe rende, em busca de técnicas para obter sucesso e se sentir bem, sereno, de boa saúde e belo aspecto: cristianismo, ioga, dieta macrobiótica, drogas, parapsicologia, psicanálise, etc.
Para o idiota, os sentimento e as emoções são «uma boa», constituindo dados manipuláveis. Em si mesmos, não lhes acha qualquer sentido ou valor, mas de qualquer modo são coisas que lhe podem trazer vantagens ou desvantagens: é preciso, portanto, avaliar-lhes as implicações e consequências. Ao lidar com sentimentos e emoções, os próprios e os alheios, o problema, para o idiota, consiste em controlá-los, guiá-los, desfrutá-los, e isso implica trabalho, cálculos complicados e a aprendizagem de técnicas nem sempre fáceis.
Impossível, realmente, para o idiota, é a espontaneidade criativa. É algo que lhe surge como uma perspectiva insegura e assustadora. À criação, prefere os sucedâneos que se aprendem nos «workshops» e nas escolas. É uma vida dura, a do idiota: de curso em curso, de colóquio em colóquio, de ciclo em ciclo. Se tem dinheiro, o idiota não se priva de ir ao sexologista e ao psicanalista aprender a libertar os apetites e fantasias sexuais e sentimentais. Com o tempo, tudo se torna para ele aprendizagem e contabilidade: do prazer, da espontaneidade, da criatividade. Cautelosa, como a contabilidade do dinheiro. Ao idiota, repugnam os ímpetos passionais, poéticos e místicos: procura prazeres seguros, previsíveis, e afasta tudo o que possa perturbá-lo.
No plano do consumo e na vida social, o idiota português aprecia as coisas cómodas, os pequenos e grandes privilégios, planeando com minúcia o modo de obtê-los. Sejam quais forem as suas petições de princípio políticas, no fundo é um céptico, despreza o «povinho», vive fechado para os outros. Aos generosos e altruístas, considera-os parvos ou hipócritas. O idiota circula à volta do sucesso como a borboleta em redor da chama, agarrando-se como lapa ou mexilhão a quem o alcança. Espertalhão, agrada-lhe receber, mas dá o menos possível, e arranja sempre qualquer explicação ética para justificar este comportamento. Na realidade, a sua lógica, elementar como as suas poucas ideias e imagens, consiste apenas em receber sempre mais do que dá.
Na actividade económica, não existe em Portugal correspondência entre o surto idiotista e o crescimento empresarial. Em muitos cavaleiros da phinança idiotófila prevalece ainda um conceito patrimonial da riqueza. Uma bela casa no campo é ainda o sinal mais espaventoso de bem-estar e opulência.
Entre os idiotas, também começa a manifestar-se, se bem que de modo caricatural, algo que recorda o hedonismo e o utilitarismo da aristocracia de outrora: o gosto de ser servido, de se distinguir do «vulgar». Como única crítica a filmes, espectáculos, livros, etc., é frequente ouvi-los dizer: «Mas que mau gosto!»
Os idiotas andam sempre juntos: consomem os mesmos produtos, frequentam os mesmos locais, lêem os mesmos livros e jornais, e têm uma habilidade notável para descobrir e evitar quem não é idiota. Graças a Deus! A política, porém, unifica o conjunto da sociedade sob o signo da idiotia: pessoas estimáveis, notáveis até nos diversos domínios do saber e da cultura, quando chegam à política tornam-se idiotas. Triunfam, quer-se dizer. Tornam-se, enfim, públicas.

[Publicado no Diário de Lisboa, de 12/6/87.]

Ernesto Sampaio

Mary Hansen, Come Together

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Noites sem nome...

Noites sem nome, do tempo desligadas,
Solidão mais pura do que o fogo e a água,
Silêncio altíssimo e brilhante.

As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I, Caminho, 1999

Kalliope Amorphous, In Dreams, 2012

sábado, 25 de maio de 2013

Aprendi a ser só

Irving Penn

Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só.


Florbela Espanca

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Guardarás numa caixinha

Guardarás numa caixinha
o que não fiz por ti,
a mão que não chegou à sobrancelha
que nem aflorou,
o beijo repetido nas palavras
sem que o tacto
o multiplicasse qual se desejava.

Nessa caixa de nada não tardará depois
a não estares só tu,
a não estar só eu,
a estarmos só os dois.

Pedro Tamen

Roza Woltzogen

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Waiting

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.

António Lobo Antunes

Brassai, Paris, anos 30



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Do not stand here

Things happened in life, and you felt them, but it was all in your mind, the colors, the fear and the anxiety. People surrounded you and houses did, and towns, but what you saw was not so important as what you felt. Life was one thing after another, a brief insanity, a series of inexplicable transitions that seemed at the time sensible but at second sight ridiculous, a succession of unconnected incidents, accidental relationships.

John Dufresne, Deep in the Shade of Paradise

Danny Lyon, 1966 véspera de ano novo no metro de Nova Iorque







sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O guarda-chuva

René Jacques, O Homem da Noite, 1939


Chovem protestos palavras
dramaturgos e profetas
a chuva dos manifestos
fecunda a horta das letras.
Chovem bátegas de sílabas
chovem doutrinas e tretas
chovem ismos algarismos
que numeram os poetas.
Chovem ciências ocultas
chovem ciências concretas
e nascem alfaces cultas
para poemas-dietas.
Chovem tiros de espingarda
chovem pragas e lamentos
e cresce a couve lombarda
nos quintais do sentimento.




Chove granizo política
dum céu carranca cinzento
constipa-se logo a crítica
que se mete para dentro.
Chovem as poetisas símias
da menina flor dos olhos
surgem canteiros de zínias
salpicados de repolhos.

Brassai, 1935

Chovem as mulheres-a-dias
com os sonetos nas curvas
lavadeiras de poesia
em barrela de águas turvas.
Chove uma chuva de pedra
chovem astros em cardume
 há uma erva que medra
com este estrume de lume.

Medra a erva do talento
medra a baga do azedume
não há erva que não medre
nas estufas do ciúme.
Chove uma chuva miúda
que é chuva de molha-tolos
sai o poema taluda
e saem rimas nos bolos.

Para o poeta que chova
por dentro, em razão inversa,
forçoso é ter guarda-chuva
contra a palavra perversa
que foi um chão que deu uva
e hoje só dá conversa.


José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Esperança

"Esperança", Mafalda Silva, Contributor Magazine, 2012

“There are times in your life when, despite the steel weight of your memories and the sadness that seems to lie at your feet like a shadow, you suddenly and strangely feel perfectly okay.”

Kevin Brockmeier

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

M-360

Aqui estamos, atravessando
sem saber o nosso destino,
à espera que o próprio caminho
o torne evidente (mas não),
somos todos assim metropolitanos (urbanos),
saímos na estação errada,
lemos cabeçalhos, vemos o envelhecimento
nos rostos que connosco através
de túneis dantescos (cliché),
e pensamos (ou dizemos agora que pensámos)
que há um plano que nos ultrapassa (rodoviário),
um plano (subterrâneo)
de linhas que se cruzam com as linhas
da mão, interceptadas em cores
e com o guarda-roupa do nosso
tempo (capitalismo tardio),
atravessamos (atrasados), sob o sol
que imaginamos em cima (platónico),
interrompidos pelo parêntesis irónico
da consciência que talvez queira fazer
a diferença mas não faz nada (nada).

Pedro Mexia

M-360, Rui Palha

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carta do Tempo Triste para a Maria Virgínia

Rui Palha


Eu bem queria não te dizer apenas
que, na cidade, são sete horas precisas
e os eléctricos conduzem gente
circunspecta e cansada.

Eu gostaria de dizer-te
que coisas sublimes tinham acontecido
ou, pelo menos, falar-te
de pequenos mas raros sucessos.

Se tudo fosse tão simples e sereno
como a descuidada juventude dos pássaros,
a todos os momentos eu poderia
enviar palavras naturais e frescas
ao teu coração aberto e vasto.

Difícil, então, só seria o silêncio
e dizendo teu nome estabeleceria
o rompimento absoluto com as estreitas,
agrestes e de sempre palavras sem futuro.

Poderia depois dizer-te coisas brandas
na universal linguagem 
que tornasse concordes pássaros e estrelas
com a circulação ritmada do teu sangue.

Poderia falar-te de coisas que não estas,
de outra gente, não esta que ora segue
sonolenta e resignada pelas ruas.
Esta gente que não tem um sonho a embalar,
mas filhos, muitos filhos,
esta gente sem gritos nem revoltas,
mas sorrisos humildes e postiços,
esta pobre gente para quem são sete horas
irremediavelmente.

Ah! Maria Virgínia, pudesse eu
dizer-te francamente: «Não há perigo,
nada importam as horas,
vamos calmos e felizes pela cidade,
e o tempo não marca porque tudo é perfeito.»

Sim, eu queria dizer-te só palavras
harmónicas e novas.
Sim, eu queria que o tempo fosse
o mesmo dos insectos e dos peixes,
dos seres simples mas donos dos seus dias.
Exactamente o propício tempo
para te enviar as mais belas notícias
que tu guardarias juntamente
com a mais pura alegria.

Ah! pudesse eu dizer-te
o que dirão os homens
 livres para sempre destas amargas horas.


António Rebordão Navarro

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Não sou…

Não sou prisioneira do tempo
Nem ancoro meus sonhos
No solo árido da minha vida medíocre.
Deixo meus olhos flutuarem
Entre céus e infernos
Que a poesia me leva.
Procuro a jóia rara
De um sorriso único
Repleto de angústia e surpresa.
Navego obscura entre
meus medos e meus desejos
sem ter certeza de nada.
Que venha a vida, então,
E penetre em mim
Como um punhal
Rasgando minhas dúvidas
Cortando as amarras
Que me prendem ao possível.
Pertenço a quem me possuir,
Sou do mundo.
Sou minha vida.
Sou o espelho do que jamais serei.

Cláudia Marczak

Sergio Larrain, Villalba, Sicília 1959

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Sair da concha...



Oh what should I do with this empty shell of mine
As empty as the hands that swing at my side
And what should I do with this watch here of mine
When reading the hands only seems to slow the time

And what should I be with so little left of me
When over there is you and all the rest of me
Well I could be the maid that wishes away the days
But time spent waiting isn't my time wasted

And what should I do when everything is cut
My heart may be halved by you but broken I am not
And what should be done when all I have is none
I will not crawl inside the shell I have become

And what should I do with this empty shell of mine?
Listen to it closely and hear it singing softly

Florence Henri

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...