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domingo, 20 de maio de 2018

Up is good

XIV

Através do teu coração passou um barco

Que nao pára de seguir sem ti o seu caminho


1982


Sophia de Mello Nreyner Andresen, in Navegações

terça-feira, 14 de julho de 2015

"We Will Crush You"

Data
(à maneira de Eustache Deschamps)
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo de ameaça

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'

Peter Kazimír, Ministro das Finanças eslovaco, lacaio de Schäuble. O comentário foi entretanto apagado da sua conta Twitter

sábado, 4 de julho de 2015

Oxi

Pranto pelo Dia de Hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'

Passaremos fome mas estaremos de pé

sábado, 25 de abril de 2015

Os Erros

Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Instante

     
Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio


Sophia de Mello Breyner Andresen

 

sábado, 2 de novembro de 2013

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Jacques Henri Lartigue



















Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
... Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.

Sophia de Mello Breyner Andresen


 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Noites sem nome...

Noites sem nome, do tempo desligadas,
Solidão mais pura do que o fogo e a água,
Silêncio altíssimo e brilhante.

As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I, Caminho, 1999

Kalliope Amorphous, In Dreams, 2012

sábado, 10 de março de 2012

O Hospital e a Praia

E eu caminhei no hospital
Onde o branco é desolado e sujo
Onde o branco é a cor que fica onde não há cor
E onde a luz é cinza

E eu caminhei nas praias e nos campos
O azul do mar e o roxo da distância
Enrolei-os em redor do meu pescoço
Caminhei na praia quase livre como um deus

Não perguntei por ti à pedra meu Senhor
Nem me lembrei de ti bebendo o vento
O vento era vento e a pedra bastava
E isso inteiramente me bastava

E nos espaços da manhã marinha
Quase livre como um deus eu caminhava

E todo o dia vivi como uma cega

Porém no hospital eu vi o rosto
Que não é pinheiral nem é rochedo
E vi a luz como cinza na parede
E vi a dor absurda e desmedida


Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética II


Francesca Woodman

domingo, 4 de dezembro de 2011

Lilies of the valley

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.

Sophia de Mello Breyner


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Os maus olhares

Desceu a escada. Na entrada parou em frente de um grande espelho de moldura doirada, pendurado por cima de um tremó. Estava ainda mais pálida agora. Abriu a carteira e, rapidamente, pôs um pouco mais de rouge nos dois lados da cara.
Então, no fundo do espelho, atrás da sua cara, viu, descendo a escada, a terceira rapariga. Era loira, não alta mas esguia e tinha um ar aéreo. O vestido chiffon cor-de-rosa pálido dançava em redor de seus passos.
Lúcia fingiu não a ver mas a rapariga avançou, parou ao seu lado em frente do espelho, sorriu e disse:
- Não se veja nesse espelho. Faz muito má cara.
Lúcia perplexa murmurou:
- Pois é, talvez...
- A sua pele é linda e branca - atalhou a rapariga, e, ali, parece cinzenta. É melhor não olhar para lá.
Pairou um silêncio. Alguém que passava chamou a rapariga. Ela, sem se mover, respondeu:
- Vou já.
Depois hesitou um instante, sorriu de novo e, olhando Lúcia, continuou:
- Sabe... é preciso não dar importância a este género de espelhos. São como as pessoas más, não dizem a verdade.
- Pois, pois é - concordou Lúcia tentando entrar no imprevisto tom da conversa.
- Sabe - e a rapariga tomou um ar ausente como se falasse sozinha - não sabemos ao certo o que querem os maus reflexos, os maus olhares, as más palavras. Talvez a perdição da nossa alma. E temos que manter a nossa alma livre.
- Pois é - concordou Lúcia espantada.
- É - rematou a rapariga.
Depois, voltou a sorrir, sacudiu os cabelos e disse:
- Tenho de ir, até já.
E afastou-se.


in Histórias da Terra e do Mar - História da Gata Borralheira, de Sophia de Mello Breyner Andresen


Andre Kertesz - Distortion

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto.
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo
Parece bater palmas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia, Lisboa, Caminho, 2003

Leopoldo Pomés, Revista Grua, 1957

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes

Sophia de Mello Breyner Andresen


Adrian Borland - Walking In The Opposite Direction

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sophia

Quando eu morrer voltarei para buscar,
os instantes que não vivi junto do mar.



Filme de João César Monteiro, 1970

domingo, 25 de abril de 2010

Que Liberdade?




As Pessoas Sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes de comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”.

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen
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