Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Jean Cocteau. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jean Cocteau. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de dezembro de 2013

Eu sonhava...

Eu sonhava que estava a dormir. Naturalmente, não me deixava enganar, sabendo que estava acordado, até à altura em que, ao despertar, me lembrei de que estava a dormir.

Henri Michaux

Berenice Abbott, Cocteau na cama com máscara, Paris 1927

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Nunca regresso ao ponto de partida

Nunca regresso ao ponto de partida,
quando me leva como eremita
a solidão do dia em que viajo,
quando nem horizontes desordenam
com seus fechados véus
a vontade afincada de transpor
as linhas clandestinas.
E porque voltaria? Trabalhoso
seria descobrir
de novo a senda aberta ao retornar,
com poeiras e pedras, sobressaltos,
em toda a dimensão da revoada.
O ponto de partida
diluiu-se aliás no pesadelo
de noites infindáveis, sem contorno,
sem astros pelo céu a tilintarem
e sem segurança do romper
da manhã desejada.
Companheira leal, a solidão
parte sempre comigo
até onde a distância não existe.

António Salvado


Sangue de um Poeta, de Jean Cocteau, 1930

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Estátuas e Espelhos


Leftfield - A Final Hit

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Heurtebise


Man Ray, Uma fotografia do anjo, 1925

I

Angel Heurtebise on the steps
Beats me with his wings
Of watered silk, refreshes my memory,
The rascal, motionless
And alone with me on the agate
Which breaks, ass, your supernatural
Pack-saddle.

II

Angel Heurtebise with incredible
Brutality jumps on me. Please
Don't jump so hard,
Beastly fellow, flower of tall
Stature.
You've laid me up. That's
Bad manners. I hold the ace, see?
What do you have?

III

Angel Heurtebise pushes me;
And you, Lord Jesus, mercy,
Lift me, raise me to the corner
Of your pointed knees;
Undiluted pleasure. Thumb, untie
The rope! I die.

IV

Angel Heurtebise and angel
Cegeste killed in the war-what a wondrous
Name-play
The role of scarecrows
Whose gesture no frightens
The cherries on the heavenly cherry trees
Under the church's folding door
Accustomed to the gesture yes.

V

My guardian angel, Heurtebise,
I guard you, I hit you,
I break you, I change
Your guard every hour.
On guard, summer! I challenge
You, if you're a man. Admit
Your beauty, angel of white lead,
Caught in a photograph by an
Explosion of magnesium.

Jean Cocteau, Heurtebise, 1925


Acontecia-me, quando muito intoxicado, dormir intermináveis sonos de meio-segundo. Um dia ao ir ver Picasso, à Rua La Boétie pareceu-me subir no elevador costas com costas com não sei o quê de terrível e que seria eterno. Uma voz gritou-me: "O meu nome encontra-se nessa placa". Um safanão fez com que acordasse e li sobre a placa de cobre os manípulos: ELEVADOR HEURTEBISE. Recordo-me que eu e Picasso falámos de milagres; Picasso dizia que tudo era um milagre, que era um milagre não nos derretermos no banho, como um pedaço de açúcar. Pouco depois, o anjo Heurtebise surgiu-me e comecei o poema. Na minha visita seguinte olhei para a placa. Nela havia o nome OTIS-PIFRE; o elevador havia mudado de marca.

Terminei o ANJO HEURTEBISE, poema ao mesmo tempo inspirado e formal como o jogo do xadrez, em vésperas da minha desintoxicação, na rua Chateaubriand.

Jean Cocteau, Ópio, diário de uma desintoxicação

Il ne s'agit pas de comprendre...Il s'agit de croire...

(...) Depois, chamei Heurtebise ao anjo de Orfeu. Cito a raiz do nome por causa de numerosas coincidências ainda motivadas por ele.

COINCIDÊNCIAS À RODA DE UM NOME E DUMA PEÇA

Quando Marcel Herrand quis repetir a peça na véspera do espectáculo, reunimo-nos em minha casa, na rua de Anjou. Repetíamo-la no vestíbulo e Herrand acabara de dizer: "Com estas luvas atravessareis os espelhos como se fossem água", quando um ruído medonho se fez ouvir no fundo do apartamento. Dum grande espelho existente na casa de banho, apenas restava a moldura. O espelho, pulverizado, juncava o chão.
Glenway Wescott e Monroe Wheeler, tendo vindo a Paris para a estreia de ORFEU, foram detidos a caminho do teatro, no Boulevard Raspail, por um choque: um vidro quebrado e um cavalo branco que enfiou a cabeça no automóvel.
Um ano depois, almoçava eu em casa deles em Ville-franche-sur-Mer onde partilhavam uma casa isolada, sobre a colina. Eles traduziam ORFEU e diziam-me que um vidreiro seria incompreensível na América. Opus-lhes KID, onde Chaplin representa em Nova York um papel de vidreiro:"É raro em Nova York e raro em Paris, disse-lhes eu, onde não se encontram quase nunca." Pediram-me então que lhes descrevesse um, enquanto, atravessando o jardim, me conduziam até ao gradeamento, quando ouvimos e vimos um vidreiro, que contra toda a expectativa e verosimilhança, passava na rua deserta para logo desaparecer.
É normal que, sabendo-me crente e crédulo, eu desconfie permanentemente e não dê demasiado depressa a alguns acasos, um significado de ordem sobrenatural.
Nunca se perturbar perante o mistério para que o mistério venha só e não encontre a pista enevoada pela nossa impaciência de entrar em contacto com ele. Não esquecer que as tomadas de contacto oficiais com o desconhecido, acabam sempre num negócio comercial, tal como Lourdes, ou por uma carga de polícia como Gilles de Rais.

Jean Cocteau, Ópio, diário de uma desintoxicação



Orphée - La traversée du Miroir, de Jean Cocteau,1950
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...