Quando o meu amigo se sentou ao sol e a sombra do seu rosto ficou projectada nas costas da cadeira, beijei a sua sombra. Beijei a sua sombra e esse beijo não o tocou, beijo perdido no ar, fundido na sombra.
O amor de um pelo outro é como uma extensa sombra que se beija, sem qualquer esperança de realidade.
Anaïs Nin, in A Casa do Incesto
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 18 de julho de 2018
domingo, 15 de julho de 2018
Deranged
Mas o medo da loucura, Jeanne, só o medo da loucura nos levará a ultrapassar as fronteiras invioláveis da nossa solidão. O medo da loucura destruirá os muros da nossa casa secreta e projectar-nos-á no mundo à procura de contactos ardentes.
Os mundos autoconstruídos e alimentados em si próprios estão cheios de fantasmas e de monstros.
Anaïs Nin, A Casa do Incesto
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
A força do hábito
A mesa está posta na sala de jantar; as torneiras distribuem água límpida, água tépida, água quente, água perfumada. O leito é tão grande para dois corno para um. Depois do rebento vai chegar a folha e depois da folha a flor e depois da chuva o bom tempo. Por que é chegada a hora, os olhos abrem-se, o corpo ergue-se, a mão estende-se, o fogo acende-se, o sorriso disputa às rugas da noite a sua curva sem malícia. E são os ponteiros do relógio que se abrem, que se erguem, que se estendem, que se acendem e que marcam a hora do sorriso. O raio de sol dá volta à casa em blusa branca. Ainda vai nevar, ainda vão cair algumas gotas de sangue pelas cinco horas mas não será nada. Oh! tenho medo, acreditei de repente que já não havia rua diante da janela, mas há, sim, lá está ela. O farmacêutico está quase a levantar a porta de ferro. Não tardará em haver mais gente à roda que no moinho, O trabalho talha-se, forja-se, desbasta-se, calcula-se. A mão volta a encontrar com prazer na ferramenta familiar a segurança do sono.
Assim isso dure!
O espelho é uma maravilhosa testemunha, variando sem cessar. Depõe com calma, com força, mas quando acabou de falar, nota-se que ele se corrige acerca de tudo. É a personificação corrente da verdade.
Sobre o caminho ricochete obstinadamente enlaçado às pernas da que volta a partir hoje tal como tornará a partir amanhã, sobre os jazigos ligeiros da despreocupação, mil passos em cada dia casam-se com os passos da véspera. Já se regressou, voltará a regressar-se sem se fazer rogado. Todos passaram por ali, indo da sua alegria à sua mágoa. É um pequeno refúgio com um imenso bico de gás. Põe-se um pé à frente de outro e aí vamos.
As paredes cobrem-se de quadros, as festas suavizam-se com ramos de flores, o espelho embacia-se de humidade. Quantos faróis sobre um regato e o regato está na vasa do rio. Dois olhos semelhantes, para servir o teu único rosto, — dois olhos cobertos pelas mesmas formigas. O verde está quase uniformemente distribuído pelas plantas, o vento segue as aves, não se corre o risco de ver morrer as pedras. O que se produz não é um animal domesticado, mas um animal domador. Ora! é a ordem imprescritível de uma cerimónia já tão faustosa, em suma! É o revólver de repetição que faz aparecer as flores no vaso, o hálito na boca.
O amor, com o tempo, renuncia tão bem a ver distintamente a noite.
Quando não estás lá, há o teu perfume que me procura. Não consigo fazer com que me restitua senão o oráculo da tua fraqueza. A minha mão na tua mão tão pouco se parecia com a tua mão na minha mão. A infelicidade, vês, a própria infelicidade ganha em ser conhecida. Tinha-te recebido como quinhão, não podes deixar de lá estar, és a prova de que existo. E tudo está de acordo com esta vida que para mim fiz para ter a certeza de ti.
— Em que pensas?
— Em nada.
andré breton e paul éluard
as mediações
a imaculada concepção
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Desprezada
"Desprezada das relações humanas (eram tão difíceis as pessoas), fora muitas vezes ao jardim receber das suas flores uma paz que os homens e as mulheres não lhe davam nunca."
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway
quinta-feira, 28 de junho de 2012
O Espelho e a Máscara
Herbert List, The Spirit of Lycabettus, Atenas 1937
- As proezas mais claras perdem o brilho se não forem cunhadas em palavras. Quero que cantes a minha vitória e o meu louvor. Serei Eneias e tu o meu Virgílio.
Julgas-te capaz de deitar mãos a esta empresa que a nós dois fará imortais?
- Julgo que sim, Rei - disse o poeta.
- Sou o Ollan. Durante doze Invernos cursei as disciplinas da métrica. De memória sei as trezentas e sessenta fábulas que são a base da verdadeira poesia. Os ciclos de Ulster e Munster estão nas cordas da minha harpa. As leis autorizam-me a prodigalizar as vozes mais arcaicas do idioma, e as mais complicadas metáforas. Domino a escrita secreta que defende a nossa arte do exame indiscreto do vulgo. Posso celebrar os amores, os roubos de gado, as navegações, as guerras. Conheço as linhagens mitológicas de todas as casas reais da Irlanda. Domino as virtudes das ervas, a astrologia judiciária, as matemáticas e o direito canónico. Num certame público derrotei os meus rivais. Adestrei-me na sátira que produz enfermidades na pele, incluindo a lepra. Sei manejar a espada, como provei na tua batalha. Só uma coisa ignoro: a forma de agradecer a honra que me dás.
O Rei, que facilmente se cansava com discursos compridos e alheios, disse aliviado:
- Estou farto de saber essas coisas. Acabam de afirmar-me que o rouxinol já cantou na Inglaterra. Quando passarem as chuvas e neves, quando o rouxinol regressar das suas terras do Sul, hás-de recitar o teu louvor perante a corte e o Colégio dos poetas. Dou-te um ano inteiro. Vais limar cada letra e cada palavra. A recompensa, já sabes, não será indigna da minha tradição real nem das tuas inspiradas vigílias.
- Rei, a melhor recompensa é ver o teu rosto - disse o poeta que também era um cortesão.
Fez as suas reverências e saiu a entrever, já, alguns versos.
Cumprido o prazo, que foi de epidemias e rebeliões, apresentou o panegírico.
Declarou-o com segurança lenta, sem deitar uma olhadela, sequer, ao manuscrito.
O Rei ia aprovando com a cabeça. Todos lhe imitavam o gesto, mesmo os que se aglomeravam nas portas e nem uma palavra decifravam.
Por fim o Rei falou.
- Aceito o teu trabalho. É outra vitória. Usaste cada vocábulo na sua acepção genuína e cada substantivo segundo o epíteto que os primeiros poetas lhe deram. Em todo o louvor não há uma única imagem que os clássicos não tenham usado. A guerra é o formoso tecido de homens e a água da espada é o sangue. O mar tem um deus próprio e as nuvens predizem o porvir. Manejaste com destreza a rima, a assonância, as quantidades, os artifícios da douta retórica, a sábia alteração da métrica. Se a literatura da Irlanda se perdesse toda - omen absit - permitiria a tua ode clássica reconstituí-la sem nenhuma falta. Trinta escribas vão transcrevê-la doze vezes.
Fez-se um silêncio e prosseguiu:
- Tudo está bem, apesar de não ter acontecido nada. O sangue não corre mais depressa nos pulsos. As mãos não se agarraram aos arcos. Ninguém empalideceu. Ninguém deu um grito de guerra ou expôs o seu peito aos Vikings. No prazo de um ano, poeta, havemos de aplaudir outro louvor. Em sinal da nossa aprovação toma este espelho, que é de prata.
- Dou graças e compreendo - disse o poeta.
As estrelas do céu retomaram o seu claro curso. Nos matagais saxónicos o rouxinol cantou de novo e o poeta voltou com o seu códice, menos comprido do que o anterior.
Não o repetiu de memória; leu-o com visível insegurança, omitindo certas passagens como se não entendesse nada delas, ou não quisesse profaná-las. A página era estranha. Não se tratava de uma descrição da batalha, era a batalha. Na sua desordem bélica agitava-se o Deus que é Três e Um, os numes pagãos da Irlanda e os que iriam guerrear, centenas de anos depois, no princípio da Edda maior. A forma não era menos curiosa. Um substantivo singular podia concordar com um verbo no plural. As preposições eram alheias às normas comuns. A aspereza alternava com a doçura. As metáforas eram arbitrárias, ou assim pareciam.
Trocando o Rei algumas palavras com os homens de letras que o rodeavam, falou desta forma:
- Do teu primeiro louvor pude afirmar que era um feliz resumo de tudo o que a Irlanda já cantara. Este supera o que ficou para trás e também o aniquila. Suspende, maravilha e deslumbra. Não vão merecê-lo os ignaros mas sim os doutos, os raros. A custódia do exemplar único será um cofre de marfim. Da pena que produziu obra tão eminente podemos, todavia, esperar outra mais alta.Com um sorriso acrescentou:
- Somos figuras de uma fábula e justo é recordar que nas fábulas domina o número três.
O poeta atreveu-se a murmurar:
- As três graças dos feiticeiros, as tríades e a indubitável Trindade.
Prosseguiu o Rei:
- Como prémio da nossa aprovação, toma lá esta máscara de ouro.
- Dou graças e compreendo - disse o poeta.
Mais um aniversário passou e as sentinelas do palácio avisaram que o poeta aparecia sem nenhum manuscrito. Com algum espanto, o Rei olhou para ele; era quase outro.
Qualquer coisa que não o tempo sulcara-lhe e transformara-lhe as feições. Os seus olhos pareciam ver muito longe, ou ter cegado. O poeta pediu para trocar com ele algumas palavras. Os escravos abandonaram a câmara.
- Não fizeste a ode? - perguntou o Rei.
- Fiz - disse com tristeza o poeta.
- Oxalá Cristo Nosso Senhor mo tivesse proibido.
- Podes repeti-la?
- Não me atrevo.
- Dou-te a quantia que precisas - declarou o Rei.
O poeta disse o poema. Era de uma só linha.
Sem conseguir pronunciá-lo em voz alta, o poeta e o seu Rei saborearam-no como uma oração secreta, ou uma blasfémia. O Rei não estava menos maravilhado e atribulado do que o outro. Olharam-se, muito pálidos.
- Nos anos da minha juventude - disse o Rei - pus-me a navegar rumo ao ocaso. Numa ilha vi lebréus de prata que matavam javalis de ouro. Noutra alimentámo-nos com o aroma de maçãs mágicas. Noutra vi muralhas de fogo. Na mais afastada de todas sulcava o céu um rio em abóbada e declive cujas águas abundavam de peixes e barcos. Isto são maravilhas mas não se comparam com o teu poema que as contém todas, pode dizer-se.
Que feitiço to concedeu?
- Acordei de madrugada a proferir palavras que ao princípio não compreendi - disse o poeta. - Essas palavras eram um poema. Senti que tinha cometido um pecado, talvez aquele que o Espírito não perdoa.
- Aquele que compartilhamos agora - murmurou o Rei.
- O de termos conhecido a Beleza, que é um dom vedado aos homens. Cabe-nos expiá-lo.
Dei-te um espelho e uma máscara de ouro; tenho aqui a terceira prenda, que é a última.
Na mão direita pôs-lhe uma adaga.
Do poeta sabemos que se matou, quando saiu do palácio; do Rei que é mendigo e corre os caminhos da Irlanda, seu reino de outrora, sem ter voltado a repetir o poema.
”O Espelho e a Máscara", in O Livro de Areia, de Jorge Luís Borges
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Eléctrico
(...) Gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e confundo-me. Fico todo enrolado a correr de uma estrela cadente para outra até desistir. Assim é a noite, e é isso o que ela faz contigo. Eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser a minha própria confusão (...)
On the Road, Jack Kerouac
Krzysztof Kieslowski, Tramwaj, 1966
On the Road, Jack Kerouac
Krzysztof Kieslowski, Tramwaj, 1966
domingo, 12 de dezembro de 2010
Lunática
A Lua, personificação do capricho, olhou pela janela enquanto dormias no teu berço, e disse consigo mesma:
in O Spleen de Paris, de Charles Baudelaire
"Gosto desta criança".
E desceu solenemente a sua escadaria de nuvens e passou sem ruídos através das vidraças. E depois envolveu-te com a ternura flexível duma mãe, depondo-te no rosto as suas cores. Daí as tuas pupilas ficarem verdes, e as tuas faces extaordinariamente pálidas. Foi ao contemplares essa visitante que os teus olhos tão bizarramente se dilataram; e ela estreitou-te o peito com tanto amor que tu ficaste para sempre com vontade de chorar.
Entretanto, na expansão da sua alegria, a Lua enchia todo o teu quarto com uma atmosfera fosforescente, como um veneno luminoso; e toda essa luz viva pensava e dizia: "Hás-de sofrer eternamente a influência do meu beijo. Serás bela à minha maneira. Amarás aquilo que eu amo e aquilo porque sou amada: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde não estejas; o amante que não conheças; as flores monstruosas, os perfumes que fazem delirar; os gatos que se espreguiçam sobre os pianos e gemem como mulheres, com uma voz rouca e suave!
"E tu serás amada pelos amantes, cortejada pelos meus cortesãos. Tu serás a rainha dos homens de olhos verdes, cujo peito igualmente estreitei nas minhas carícias nocturnas; daqueles que amam o mar imenso, tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde não estão, a mulher que eles não conhecem, as flores sinistras que se semelham a turíbulos duma religião desconhecida, os perfumes que perturbam a vontade, e os animais selvagens e voluptuosos que são emblemas da sua loucura".
E é por isso, maldita e adorada criança mimalha, que eu estou agora deitado a teus pés, procurando em toda a tua pessoa o reflexo da temerosa Divindade, da fatídica madrinha, da ama peçonhenta de todos os lunáticos.
in O Spleen de Paris, de Charles Baudelaire
Madeline von Foerster
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça - 4ª e última parte
Desde então, continua a dar-me pancadas com o guarda-chuva na cabeça. Que eu saiba, jamais dormiu nem comeu nada. Limita-se simplesmente a bater-me. Acompanha-me em todos os meus actos, até nos mais íntimos. Lembro-me de que, a princípio, as pancadas me impediam de conciliar o sono; agora, creio que, sem elas, ser-me-ia impossível dormir.
Todavia, as nossas relações nem sempre foram as melhores. Muitas vezes lhe pedi, em todos os tons possíveis, que me explicasse o seu comportamento. Foi inútil: silenciosamente continuava a bater-me com o guarda-chuva na cabeça. Em muitas ocasiões lhe preguei murros, pontapés e - Deus me perdoe - até guardachuvadas. Ele aceitava as pancadas com mansidão, aceitava-as como fazendo também parte da sua tarefa. E este é exactamente o lado mais alucinante da sua personalidade: essa espécie de tranquila convicção no seu trabalho, essa carência de ódio. Enfim, essa certeza de estar a cumprir uma missão secreta e superior.
Pese embora a sua ausência de necessidades fisiológicas, sei que, quando lhe bato, sente dor, sei que é frágil, sei que é mortal. Sei também que um tiro me livraria dele. O que ignoro é se o tiro irá matá-lo a ele ou matar-me a mim. Também não sei se, quando estivermos ambos mortos, não continuará a dar-me com o guarda-chuva na cabeça. Seja como for, este raciocínio é inútil: reconheço que não me atreveria nem a matá-lo nem a matar-me.
Por outro lado, nos últimos tempos compreendi que não poderia viver sem as suas pancadas. Agora, cada vez com mais frequência, atormenta-me certo pressentimento. Uma nova angústia me corrói o peito: a angústia de pensar que, quando ele me fizer mais falta, se irá embora, e eu não mais sentirei as suaves guardachuvadas que me faziam dormir tão profundamente.
Fernando Sorrentino, "Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça" (trad. Fernando Venâncio), in Ficções, nº9, 1º semestre de 2004
domingo, 7 de novembro de 2010
Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça - 3ª parte
Ele postou-se, de pé, a meu lado: com a mão esquerda segurava-se à pega de couro; com a direita brandia implacável o guarda-chuva. Os passageiros começaram por trocar tímidos sorrisos. O condutor pôs-se a observar-nos pelo espelho. Pouco a pouco avolumou-se uma grande gargalhada, uma gargalhada estrondosa, interminável.
Eu, com a vergonha, corei que nem um pimento. O meu perseguidor, alheio aos risos, continuou com as pancadas.
Desci - descemos - na ponte do Pacífico. Seguíamos pela avenida Santa Fé. Todos se voltavam estupidamente para nos olhar. Pensei em dizer-lhes: "Que é que estão a olhar, imbecis? Nunca viram um homem a bater na cabeça de outro com um guarda-chuva?". Mas também pensei que nunca teriam visto tal espectáculo. Cinco ou seis miúdos puseram-se a seguir-nos, gritando como energúmenos.
Mas eu tinha um plano. Chegado a casa, decidi fechar-lhe bruscamente a porta nas ventas. Não consegui: ele, com mão firme, antecipou-se, agarrou a maçaneta, deu um empurrão e entrou comigo.
Fernando Sorrentino, "Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça" (trad. Fernando Venâncio), in Ficções, nº 9, 1º semestre de 2004
Fernando Sorrentino, "Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça" (trad. Fernando Venâncio), in Ficções, nº 9, 1º semestre de 2004
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça - 2ª parte
Porque, de facto, o homem não me pregava propriamente guardachuvadas; eram antes leves pancadas o que me aplicava, absolutamente indolores. É claro que tais pancadas são tremendamente incómodas. Todos sabemos que, quando uma mosca nos pousa na testa, não sentimos dor nenhuma: sentimos desconforto. Ora bem, aquele guarda-chuva era uma gigantesca mosca que, a intervalos regulares, pousava, uma vez e outra, na minha cabeça.
Convencido de que me achava perante um louco, resolvi afastar-me. Mas o homem seguiu-me em silêncio, sem parar de bater. Desatei então a correr (aqui devo salientar que há poucas pessoas tão rápidas como eu). Ele lançou-se em minha perseguição, procurando em vão assestar-me uma pancada. E o homem ofegava, ofegava, ofegava, e arquejava tanto que pensei que, se continuasse a obrigá-lo a correr assim, o meu torturador cairia morto ali mesmo.
Por isso deixei a correria e retomei o passo. Olhei-o. No seu rosto não havia nem gratidão nem censura. Só me dava com o guarda-chuva na cabeça. Pensei em apresentar-me na esquadra, dizer: "Senhor comandante, este homem está a dar-me com um guarda-chuva na cabeça". Seria um caso sem precedentes. O comandante olhar-me-ia desconfiado, começaria a fazer-me perguntas embaraçosas, talvez acabasse por prender-me.
Achei melhor voltar para casa. Meti-me no autocarro 67. Ele, sem deixar de dar-me pancadas, subiu atrás de mim. Sentei-me no primeiro banco.
Fernando Sorrentino, "Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça" (trad. Fernando Venâncio), in Ficções, nº9, 1º semestre de 2004
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça - 1ª parte
Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça. Faz hoje exactamente cinco anos que começou a dar-me com guarda-chuva na cabeça. Nos primeiros tempos não conseguia suportá-lo; agora estou habituado.
Não sei como se chama. Sei que é um homem vulgar, de fato cinzento, alguns cabelos brancos, um rosto vago. Conheci-o há cinco anos, numa manhã de calor. Eu estava a ler o jornal, à sombra de uma árvore, sentado num banco da mata de Palermo. De repente senti que qualquer coisa me tocava na cabeça. Era este mesmo homem que, agora, enquanto estou a escrever, continua mecânica e indiferentemente a dar-me guardachuvadas.
Naquele momento virei-me cheio de indignação: ele continuou a aplicar-me pancadas. Perguntei-lhe se estava doido: nem pareceu sequer ouvir-me. Então ameacei-o de ir chamar um guarda: imperturbável e sereno, prosseguiu a sua tarefa. Depois de uns instantes de indecisão, e vendo que ele não desistia da sua atitude, pus-me de pé e preguei-lhe um soco na cara. O homem, exalando um ténue gemido, caiu no chão. De imediato, e fazendo, ao que parecia, um grande esforço, levantou-se e voltou silenciosamente a dar-me com o guarda-chuva na cabeça. O nariz sangrava-lhe, e nesse momento tive pena do homem e senti remorsos de tê-lo agredido daquela maneira.
Fernando Sorrentino, "Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça" (trad. Fernando Venâncio), in Ficções, nº 9, 1º semestre de 2004
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
A Amante do Tenente Francês: o livro ou o filme?
O LIVRO

A Amante do Tenente Francês, de Karel Reisz, 1981
A Amante do Tenente Francês, de John Fowles, é considerado um dos primeiros romances "pós-modernos" - o autor assume-se como narrador omnisciente e até como personagem. A história gira à volta de amores proibidos na Inglaterra vitoriana e é examinada e comentada pelo autor a partir da sua perspectiva cultural dos anos 60 (quando o livro foi escrito).
Fowles conversa com o leitor e brinca com a evolução da narrativa - em determinado momento, refere que se vê forçado a alterar o plano inicial do romance por causa das personagens, que decidiram outra coisa. Para completar, dá ao leitor a hipótese de escolher entre três finais distintos!
O FILME
A obra de Fowles foi adaptada ao cinema por Harold Pinter, em 1981, com realização de Karel Reisz e interpretações de Jeremy Irons e Meryl Streep. Embora diverso do livro, o filme também segue uma linha narrativa original.
Jeremy Irons e Meryl Streep desempenham os papéis dos amantes vitorianos (Charles e Sarah) e dos actores contemporâneos (Mike e Anna) que os representam na rodagem de um filme, mantendo também eles uma ligação amorosa adúltera. Assim se entrelaçam duas histórias de amor, do passado e do presente, da ficção e da realidade(?).
Uma vez que o romance de Fowles apresenta finais alternativos, também no filme, as duas histórias de amor têm desenlaces diferentes...
A Amante do Tenente Francês, de Karel Reisz, 1981
domingo, 12 de setembro de 2010
Jane Eyre: Manifesto Anti-Boneca de Porcelana
Charlotte Bronte, Jane Eyre (cap. XXIII)The vehemence of emotion, stirred by grief and love within me, was claiming mastery, and struggling for full sway, and asserting a right to predominate, to overcome, to live, rise, and reign at last: yes, - and to speak."I grieve to leave Thornfield: I love Thornfield:- I love it, because I have lived in it a full and delightful life,- momentarily at least. I have not been trampled on. I have not been petrified. I have not been buried with inferior minds, and excluded from every glimpse of communion with what is bright and energetic and high. I have talked, face to face, with what I reverence, with what I delight in,- with an original, a vigorous, an expanded mind. I have known you, Mr. Rochester; and it strikes me with terror and anguish to feel I absolutely must be torn from you for ever. I see the necessity of departure; and it is like looking on the necessity of death." (...)"I tell you I must go!" I retorted, roused to something like passion. "Do you think I can stay to become nothing to you? Do you think I am an automaton? - a machine without feelings? and can bear to have my morsel of bread snatched from my lips, and my drop of living water dashed from my cup? Do you think, because I am poor, obscure, plain, and little, I am soulless and heartless? You think wrong! - I have as much soul as you, - and full as much heart! And if God had gifted me with some beauty and much wealth, I should have made it as hard for you to leave me, as it is now for me to leave you. I am not talking to you now through the medium of custom, conventionalities, nor even of mortal flesh; - it is my spirit that addresses your spirit; just as if both had passed through the grave, and we stood at God's feet, equal, - as we are!"
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Actor e Espectador
António Feio em O Que Diz Molero, adaptação teatral de Nuno Artur Silva
«Molero Diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava , muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva». (...)
Dinis Machado, O Que Diz Molero
quarta-feira, 7 de julho de 2010
O menino dos pés frios
de MATILDE ROSA ARAÚJO
Era uma vez uma casa. Muito grande. Com um tecto altíssimo, nem sempre azul. Uma casa enorme onde habitava uma grande família: uma família tão grande que, por vezes, não julgavam os seus membros que se conheciam. E se deviam amar.
Houve um menino que entrou nesta casa estava ela toda branca. No chão tapetes de neve, cristais de água de uma brancura que estremecia. E as próprias árvores escorriam essa brancura. E frio. Iluminava-a uma estrela tão brilhante que, sobre o tecto, parecia que poisava sobre as nossas mãos.
Ora um dia, em que fazia anos em que esse menino entrara nessa casa, outro menino por ela andava com frio. Pelo chão, pelos milhões de cristais, caminhavam os seus pezitos enregelados. Tanto frio que nem podia olhar a estrela brilhante. Nem os milhões de cristais que pisava.
Uma mulher chorava a um canto dessa casa. E era triste essa mulher. Estava triste e cansada. Na casa nem tudo era belo. Ali estava aquele menino cheio de frio. E, como ele, tantos meninos.
E, já há quase dois mil anos, um menino entrara na asa, que ficou mais clara com a luz brilhante do tecto. O menino entrou só para dizer uma palavra pequenina: AMOR.
Então essa mulher perguntou ao menino dos pés frios:
– Tu não tens a tua casa?
O menino olhou a mulher triste e ficou triste. Ambos estavam tristes. E disse quase envergonhado que não.
– Tu não tens roupa? Sapatos? Um lume? Pão?
A cabeça (tão linda!) do menino ia abanando sempre a dizer não. A mulher triste começou a ter vergonha.
Então ela consentia que na sua casa, na casa de todos, de tecto nem sempre azul, houvesse um menino sem roupa, sem lume, sem pão? Ela consentia uma coisa assim? E os outros também?
Escorregaram-lhe pela face já enrugada duas lágrimas transparentes. De água. Água como a que tombava do tecto, como a que se estendia nos mares.
E perguntou mais ao menino:
– E para onde vais? Eu dou-te qualquer coisa para o caminho...
O menino olhou para ela admirado. Não lhe disse para onde ia. Observou-lhe apenas:
– Tens duas gotas de água nos teus olhos que reflectem o céu azul e a lâmpada do tecto. Não sentes?
A mulher deixou cair pelo rosto enrugado as duas lágrimas. A pele, então, ficou-lhe mais lisa. E ela tornou-se menos curva. Ergueu-se. Estendeu, sorrindo, os dois braços ao menino. E disse:
– Fica. Perdoa.
E o menino ficou. Nos seus braços. Encostado ao seu peito. Com os pés aquecidos sobre o campo de neve.
E a mulher entendeu que não adiantava chorar ao canto da casa. E o seu vestido era uma bandeira. E o seu coração uma flor. Com o menino a seu lado.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Procurando um caminho
-Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
-Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
-Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
-Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.
(...)
- desde que eu chegue a algum lado - acrescentou Alice a título de explicação.
- Oh, certamente que hás-de chegar - disse o gato - desde que caminhes o suficiente.)
Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas
-Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
-Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
-Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.
(...)
- desde que eu chegue a algum lado - acrescentou Alice a título de explicação.
- Oh, certamente que hás-de chegar - disse o gato - desde que caminhes o suficiente.)
Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas
sábado, 19 de junho de 2010
Hell is repetition
To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Shakespeare, Macbeth, Act Five, Scene V
PJ Harvey - Dear Darkness
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Shakespeare, Macbeth, Act Five, Scene V
PJ Harvey - Dear Darkness
sábado, 5 de junho de 2010
Espelho de Casados
Diane Arbus, Westchester family, 1968
Muy conhecida cousa he quem varias e inconstantes som as molheres. Varia e mudauel cousa he a molher que tres vezes se muda na hora. E nam faltou quem disse e nam fuy eu. Que quando carecer ho mar de Ondas, e os ryos de peyxes, então cesara a molher de enganar, e de se mudar. E portanto pyntão a Fortuna em fegura de molher em cima de uma bola, a denotar que logo se revolue e muda. (...) Ho geeral das molheres, tirando muytas em que se acha vertude e excellencia, som muy opiniaticas. Soberbas e Enganosas. Por ellas se disse. Armado dyabo. Cabeça de pecado. Destruyçom do Parayso.
(João de Barros, Espelho de Casados, parte I, fl. VII, escrito no século XVI)
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Espelho Convexo
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar ?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assi co a alma minha se conforma,
está no pensamento como ideia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
Luís Vaz de Camões
INTERVALO DOLOROSO - Autobiografia sem factos
112.
Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanismo é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade.
Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

Jan Van Eyck, Detalhe do Espelho Convexo - O Casamento dos Arnolfini, 1434
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar ?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assi co a alma minha se conforma,
está no pensamento como ideia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
Luís Vaz de Camões
INTERVALO DOLOROSO - Autobiografia sem factos
112.
Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanismo é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade.
Bernardo Soares, O Livro do Desassossego
Jan Van Eyck, Detalhe do Espelho Convexo - O Casamento dos Arnolfini, 1434
terça-feira, 1 de junho de 2010
Infância
"Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão imensamente vivido como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido, aqueles que passámos com um livro preferido. Tudo quanto, ao que parecia, os enchia para os outros, e que afastávamos como um obstáculo vulgar a um prazer divino: a brincadeira para a qual um amigo nos vinha buscar na passagem mais interessante, a abelha, ou o raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da página ou a mudar de lugar, as provisões para o lanche que nos obrigavam a levar e que deixávamos ao nosso lado no banco, sem lhes tocar, enquanto, sobre a nossa cabeça, o sol diminuía de intensidade no céu azul, o jantar que motivara o regresso a casa e durante o qual só pensávamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, o capitulo interrompido, tudo isto, que a leitura nos devia ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contrário gravava em nós uma recordação de tal modo doce (de tal modo preciosa no nosso entendimento actual do que o que líamos então com amor) que, se ainda hoje nos acontece folhear esses livros de outrora, é apenas como sendo únicos calendários que guardámos dos dias passados, e com a esperança de ver reflectidas nas suas páginas as casas e os lagos que já não existem. (...)"
Marcel Proust, O Prazer da Leitura
Marcel Proust, O Prazer da Leitura
Subscrever:
Mensagens (Atom)




