“Somebody’s boring me. I think it’s me.”
Dylan Thomas
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segunda-feira, 6 de novembro de 2017
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
O Idiota
O IDIOTA é geralmente competente, moralmente irrepreensível e socialmente necessário. Faz o que tem a fazer sem dúvidas ou hesitações, respeita as hierarquias, toma sempre o partido do bem e acredita religiosamente nas grandes ficções sociais.
A incapacidade de relacionar as coisas, as ideias e as sensações transforma-a ele em força, e como lhe escapam as causas e os fins do que lhe mandaram fazer, fá-lo com prontidão e limpeza, sem introspecções inúteis. Do mesmo modo, como vê no destino o único regulador da vida, acha que se uns dão ordens e outros obedecem é porque todos cumprem misteriosas injunções da providência, as quais é não só inútil, mas criminoso sondar.
O idiota só pode ser bom. Para o mal, precisa-se de imaginação, inteligência discriminativa, espírito científico. Como também não dispõe de virtualidades poéticas e é, portanto, incapaz de se criar a si próprio, idolatra quem o criou: Deus em primeiro de tudo, e depois os pais.
O idiota é um bom cidadão. Sem ele, a sociedade entraria em curto-circuito, incendiada entre os polos do dever heróico e da desobediência revolucionária. Dado ser-lhe vedado apreender o nexo que liga a evolução dos meios de produção à transformação das relações de propriedade acredita de facto que o corolário das novas tecnologias é o reforço da iniciativa privada, da livre empresa e do livre mercado. É o único que acredita nisso e ainda bem. Se ninguém acreditasse, esta sociedade parava. O idiota é todo liberdades.
A idiotia também faz bem às artes, principalmente às audiovisuais. A concentração do idiota numa ideia fixa, torna--o especialmente receptivo às músicas de ritmo simples e batida forte, o que facilita extraordinariamente o comércio discográfico, com todas as vantagens que daí advêm para producers e performers, enfim, para o tecido social. No que diz respeito às artes plásticas, tudo é mais fecundo se não houver interferências entre os olhos e as mãos. As ideias perturbam, turvam o olhar, atrapalham o gesto e, nos casos de ideologite aguda, daltonizam as cores. Sem imagens, uma cabeça vazia endoidece.
Embora para um idiota seja uma desvantagem não saber que o é, normalmente ninguém lho diz: segundo Brecht, «tornar-se-ia vingativo como todos os idiotas». Aliás, o mesmo Brecht diz que ser idiota não é grave: «É assim que você poderá chegar aos 80 anos. Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem. E então na política!»
O idiota puro é o idiota jovem. Com o tempo, torna-se cínico, adquire hábitos esquisitos, sempre à procura do que lhe serve ou lhe rende, em busca de técnicas para obter sucesso e se sentir bem, sereno, de boa saúde e belo aspecto: cristianismo, ioga, dieta macrobiótica, drogas, parapsicologia, psicanálise, etc.
Para o idiota, os sentimento e as emoções são «uma boa», constituindo dados manipuláveis. Em si mesmos, não lhes acha qualquer sentido ou valor, mas de qualquer modo são coisas que lhe podem trazer vantagens ou desvantagens: é preciso, portanto, avaliar-lhes as implicações e consequências. Ao lidar com sentimentos e emoções, os próprios e os alheios, o problema, para o idiota, consiste em controlá-los, guiá-los, desfrutá-los, e isso implica trabalho, cálculos complicados e a aprendizagem de técnicas nem sempre fáceis.
Impossível, realmente, para o idiota, é a espontaneidade criativa. É algo que lhe surge como uma perspectiva insegura e assustadora. À criação, prefere os sucedâneos que se aprendem nos «workshops» e nas escolas. É uma vida dura, a do idiota: de curso em curso, de colóquio em colóquio, de ciclo em ciclo. Se tem dinheiro, o idiota não se priva de ir ao sexologista e ao psicanalista aprender a libertar os apetites e fantasias sexuais e sentimentais. Com o tempo, tudo se torna para ele aprendizagem e contabilidade: do prazer, da espontaneidade, da criatividade. Cautelosa, como a contabilidade do dinheiro. Ao idiota, repugnam os ímpetos passionais, poéticos e místicos: procura prazeres seguros, previsíveis, e afasta tudo o que possa perturbá-lo.
No plano do consumo e na vida social, o idiota português aprecia as coisas cómodas, os pequenos e grandes privilégios, planeando com minúcia o modo de obtê-los. Sejam quais forem as suas petições de princípio políticas, no fundo é um céptico, despreza o «povinho», vive fechado para os outros. Aos generosos e altruístas, considera-os parvos ou hipócritas. O idiota circula à volta do sucesso como a borboleta em redor da chama, agarrando-se como lapa ou mexilhão a quem o alcança. Espertalhão, agrada-lhe receber, mas dá o menos possível, e arranja sempre qualquer explicação ética para justificar este comportamento. Na realidade, a sua lógica, elementar como as suas poucas ideias e imagens, consiste apenas em receber sempre mais do que dá.
Na actividade económica, não existe em Portugal correspondência entre o surto idiotista e o crescimento empresarial. Em muitos cavaleiros da phinança idiotófila prevalece ainda um conceito patrimonial da riqueza. Uma bela casa no campo é ainda o sinal mais espaventoso de bem-estar e opulência.
Entre os idiotas, também começa a manifestar-se, se bem que de modo caricatural, algo que recorda o hedonismo e o utilitarismo da aristocracia de outrora: o gosto de ser servido, de se distinguir do «vulgar». Como única crítica a filmes, espectáculos, livros, etc., é frequente ouvi-los dizer: «Mas que mau gosto!»
Os idiotas andam sempre juntos: consomem os mesmos produtos, frequentam os mesmos locais, lêem os mesmos livros e jornais, e têm uma habilidade notável para descobrir e evitar quem não é idiota. Graças a Deus! A política, porém, unifica o conjunto da sociedade sob o signo da idiotia: pessoas estimáveis, notáveis até nos diversos domínios do saber e da cultura, quando chegam à política tornam-se idiotas. Triunfam, quer-se dizer. Tornam-se, enfim, públicas.
Ernesto Sampaio
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| Mary Hansen, Come Together |
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Do not stand here
Things happened in life, and you felt them, but it was all in your mind, the colors, the fear and the anxiety. People surrounded you and houses did, and towns, but what you saw was not so important as what you felt. Life was one thing after another, a brief insanity, a series of inexplicable transitions that seemed at the time sensible but at second sight ridiculous, a succession of unconnected incidents, accidental relationships.
John Dufresne, Deep in the Shade of Paradise
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| Danny Lyon, 1966 véspera de ano novo no metro de Nova Iorque |
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Esperança
domingo, 23 de setembro de 2012
Sós a vida inteira
"Há pessoas que nascem para serem sós a vida inteira. Eu, por exemplo. (...) Frequentemente me assusto, pensando que a vida vai acabar sem que eu encontre um grande amor ou uma grande amizade, ou mesmo uma grande vocação que justifique esse isolamento."
"Mas gosto, gosto das pessoas. Não sei me comunicar com elas, mas gosto de vê-las, de estar a seu lado, saber suas tristezas, suas esperas, suas vidas."
Caio Fernando Abreu, in Limite Branco, 1967
Here They Used to Build Ships
"Mas gosto, gosto das pessoas. Não sei me comunicar com elas, mas gosto de vê-las, de estar a seu lado, saber suas tristezas, suas esperas, suas vidas."
Caio Fernando Abreu, in Limite Branco, 1967
Here They Used to Build Ships
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Renascer
"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."
"Vai passar,tu sabes que vai passar.Talvez não amanhã,mas dentro de uma semana, um mês ou dois,quem sabe?O verão está aí, haverá sol quase todos os dias,e sempre resta essa coisa chamada¨impulso vital. Pois esse impulso às vezes cruel,porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e,de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como "estou contente outra vez"..."
terça-feira, 17 de julho de 2012
Na luz e na sombra
Saul Leiter
“I spent a great deal of my life being ignored. I was always very happy that way. Being ignored is a great privilege. That is how I think I learnt to see what others do not see and to react to situations differently. I simply looked at the world, not really prepared for anything.”
Saul Leiter
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Private World
“I feel so intensely the delights of shutting oneself up in a little world of one’s own, with pictures and music and everything beautiful.”
Virginia Woolf,The Voyage Out
Virginia Woolf,The Voyage Out
Vivien Leigh em Um Eléctrico Chamado Desejo, de Elia Kazan, 1951
quarta-feira, 13 de junho de 2012
I don't remember
segunda-feira, 28 de maio de 2012
One look
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Into the night
Erwin Blumenfeld, Minor Spotlight, NY c. 1955
The eye is always caught by light, but shadows have more to say.
Gregory Macguire
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Move on
“It is always the way of events in this life…no sooner have you got settled in a pleasant resting-place, than a voice calls out to you to rise and move on, for the hour of repose is expired."
Jane Eyre, de Charlotte Bronte
Jane Eyre, de Charlotte Bronte
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Out of the blue into the black
Peter Maurer
Don’t grieve for what doesn’t come.
Some things that don’t happen
keep disasters from happening.
Rumi, The Book of Love, trad. Coleman Barks
domingo, 18 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
So many books so little time
One summer morning at sunrise a long time ago
I met a little girl with a book under her arm.
I asked her why she was out so early and
she answered that there were too many books and
far too little time. And there she was absolutely right.
Tove Jansson
sábado, 28 de janeiro de 2012
Is that a problem?
"I am selfish, private and easily bored. Will this be a problem?"
Neil Gaiman, A Study in Emerald
Neil Gaiman, A Study in Emerald
Mary Pickford, The Poor Little Rich Girl, 1917
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Contemplação
"La contemplation du corps de la femme doit être une réponse rassurante à l’angoisse du monde"
Lucien Clergue
Lucien Clergue
Vivre sa vie, de Jean-Luc Godard, 1962
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
domingo, 1 de janeiro de 2012
Fado
“It is weak and silly to say you cannot bear what it is your fate to be required to bear.”
Jane Eyre, Charlotte Bronte
Jane Eyre, Charlotte Bronte
Brassai, fortune teller's hands, 1933
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Flores
Dor, Carlos Schwabe
"Because the world is so full of death and horror, I try again and again to console my heart and pick the flowers that grow in the midst of hell."
Hermann Hesse, Narcissus and Goldmund
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