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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, 
pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
pela branda melodia do rumor dos regatos, 
pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
pelos aromas maduros de suaves outonos, 
pela futura manhã dos grandes transparentes, 
pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
abre as portas da História, 
deixa passar a Vida!

Natália Correia, Inéditos

Romualdas Rakauskas

quarta-feira, 21 de março de 2012

O espírito

Nada a fazer, amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.


Natália Correia, "Sonetos Românticos", in Poesia Completa



Lucien Levy-Dhurmer

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Anaíta

III

Pontualmente uma árvore de ouro
nasce onde o sémen do homem
e o curso de água feminino
se fundem e as sombras se somem.

Verdura dos olhos de Anaíta
por nossas carícias semeada
que passeios de tílias nas cidades
para a pureza do encontro guarda.

Anaíta que a raiz do homem
na terra da mulher prepara
e as extremidades do mundo
num ramo de amor ata.

Anaíta que as árvores conhecem
por seu nome próprio de mirtos
e como risos as aves voam
seu fresco bater de cílios.

Matrona que à cabeça traz
a abismada bilha nos espaços
pomo celeste que se destila
no alambique dos afagos.

Anca do mundo requebrada
estrela que guarda em seu lenço
os beijos com que sopramos
a nossa bolha de silêncio.

Ouvido que o crescer dos abetos
no bosque da cópula escuta.
Mulher! oh rito de Anaíta
mistério de ser virgem e puta.

Natália Correia in Mátria

Brassai
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