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domingo, 30 de dezembro de 2012

"Who is it that can tell me who I am?" *

* Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV

Não é bastante
que eu reconheça a minha solidão
e a queira como início dum caminho.
Não é bastante
ser livremente tudo quanto sei
e estar aberto a tudo o que serei.
Tudo o que fui e o que sou e o que serei
já são iguais
no tempo do meu todo ignorado.
Quero abrir o que as palavras não descrevem
para já não responder ao sim e ao não
do meu espelho conhecível.
Já não me basta apenas dar um nome
à morte que me cabe enquanto vivo
porque morrer é ter perdido a morte
para sempre
tornando sem sentido o sim e o não
com que me circundei e defini-me.
Conheço-me as fronteiras.
Quero o resto.

Helder Macedo

A Dupla Vida de Verónica, de Kieslowski, 1991

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O melhor pretexto

É tão frágil a vida,
tão efémero tudo!
(Não é verdade, amiga,
olhinhos-cor-de-musgo?)

E ao mesmo tempo é forte,
forte da veleidade
de resistir à morte
quanto maior é a idade.

Assim, aos trinta e sete,
fechados alguns ciclos,
a vida ainda pede
mais sentimentos, vínculos.

Não tanto os que nos deram
a fúria de viver,
como esses descobertos
depois de se saber

que a vida não é outra
senão a que fazemos
(e a vida é uma só,
pois jamais voltaremos).

Partidários da vida,
melhor: do que está vivo,
digamos "não" a tudo
que tenha outro sentido.

E que melhor pretexto
(quem o saiba que o diga!)
teremos p'ra viver
senão a própria vida?

Alexandre O'Neill
in Poemas com endereço, 1962


La Double Vie de Veronique, de Kieslowski, 1991

terça-feira, 20 de abril de 2010

Van den Budenmayer Concerto

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O Duplo : La Double Vie de Véronique de Krzysztof Kieslowski

Seguramente um dos filmes da minha vida e inspirador do título deste blogue. La Double Vie de Véronique é um filme sublime, mágico e misterioso.

A francesa Véronique e a polaca Veronika – uma alma dividida em dois corpos. Funcionando mais num nível espiritual do que religioso, o filme explora a ideia de todos nós termos um duplo que vive a sua vida nalgum outro lugar. Diz-se que ver o seu próprio doppelganger é sinal de morte iminente e, de facto, pouco tempo depois de avistar acidentalmente Véronique num autocarro, Veronika morre…

Este filme fascina-me pelas suas “coincidências”(Alexander diz a Véronique que mantém duas marionetas iguais para o caso de uma se partir…), sincronicidades e pelas suas inconsistências e ausência de resolução final – não é assim mesmo a vida? De repente, a nossa realidade quotidiana é subtilmente impregnada de poesia…

A minha cena favorita – a das marionetas. A vida e a morte manipuladas pelo criador, a metamorfose e a ascensão da alma...


La Double Vie de Verónique, de Krzysztof Kieslowski, 1991
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