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sábado, 5 de março de 2011

Persona

"(…) na realidade não há nenhum eu, nem mesmo o mais simples, não há uma unidade, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas, de matizes, de situações, de heranças e possibilidades. Cada indivíduo isolado vive sujeito a considerar esse caos como uma unidade e fala de seu eu como se fora um ente simples, bem formado, claramente definido; e a todos os homens, mesmo aos mais eminentes, esse rude engano parece uma necessidade, uma exigência da vida, como o respirar e o comer. O equívoco reside numa falsa analogia. Todo homem é uno quanto ao corpo, mas não quanto à alma."

Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe

Persona (1966), de Ingmar Bergman, é o jogo de espelhos mais fascinante que já vi em cinema.
Elizabeth Vogler, uma actriz com um esgotamento, é acompanhada pela enfermeira Alma. A silenciosa Elizabeth escuta e parece absorver as confidências de Alma até ao ponto desta não conseguir distinguir mais onde acabam os seus pensamentos e começam os da sua paciente.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A dolorosa mutação do cisne negro



O artista é um ser trágico, que "morre" no palco para dar vida a outro ser e Darren Aronofsky, no seu Black Swan, leva esta ideia até às últimas consequências. Natalie Portman encarna uma frágil bailarina, Nina Sayers, qual boneca de porcelana prestes a quebrar-se. Tudo na sua vida, começando pela mãe castradora, concorre para a incessante procura da perfeição. E o preço a pagar pela perfeição é uma viagem em tons de pesadelo ao seu interior, num jogo alucinante de espelhos, dualidades e de confrontos com a sua sombra - o cisne negro?

O macabro e as metamorfoses, quase kafkianas, da bailarina assustam-nos e fascinam-nos, transmitindo-nos todo o sofrimento de uma mente em ruínas - um espelho quebrado. E é no palco que Nina realiza o sacrifício supremo, e a beleza e a perfeição são atingidas...

Há muito tempo que não via um filme assim...

terça-feira, 27 de julho de 2010

O Duplo


Sugerido ou estimulado pelos espelhos, as águas e os irmãos gémeos, o conceito do Duplo é comum a muitas nações. É verosímil supor que sentenças como "Um amigo é um outro eu" de Pitágoras ou o "Conhece-te a ti mesmo" platónico se inspiraram nele. Na Alemanha chamaram-lhe o Doppelganger, na Escócia o Fetch, porque vem buscar (fetch) os homens para os levar à morte. Encontrar-se consigo mesmo é, portanto, ignominioso; a trágica balada Ticonderoga de Robert Louis Stevenson refere uma lenda sobre este tema. Recordemos também o estranho quadro How they met themselves de Rossetti.

Para os judeus, em contrapartida, o aparecimento do Duplo não era presságio de uma morte próxima. Era a certeza de ter alcançado o estado profético. Assim o explica Gershom Scholem. Uma tradição recolhida pelo Talmude narra o caso de um homem à procura de Deus, que se encontrou consigo mesmo.

No relato William Wilson de Poe, o Duplo é a consciência do herói. Este mata-o e morre. Na poesia de Yeats, o Duplo é o nosso anverso, o nosso contrário, o que nos complementa, o que não somos nem seremos.

Plutarco escreve que os Gregos deram o nome de "outro eu" ao representante de um rei. 


in O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Comigo


Dino Valls, La Cuerda de Plata, 1995

Mote

De que me serve fugir
da morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?

Voltas

Tenho-me persuadido
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.

E se de mi me livrasse
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe,
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.

Luís Vaz de Camões, Rimas

Dupla


Dino Valls, Rorschach, 1991


DAS TROVAS À MANEIRA ANTIGA

Comigo me desavim
Sou posto em todo o perigo
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia;
Antes que esta assi crescesse;
Agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.

Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo
tamanho imigo de mim?

Francisco de Sá de Miranda (1495-1558)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

How They Met Themselves


Dante Gabriel Rossetti, How They Met Themselves, 1851-1864

Dois amantes, passeando no bosque, avistam uma aparição dos seus duplos, rodeados por uma luz fantasmagórica.
A dama, quase a desfalecer, tenta alcançar o seu outro, fora deste mundo, eu, enquanto a dama etérea olha, compadecida.
Os dois homens estão assustados e desafiantes, mão na espada.
Nem em todas as tradições, o encontro com o doppelganger significa premonição de morte. Também pode representar um encontro com Deus.
Esta última visão aproxima-se muito mais das minhas próprias emoções relativamente a este quadro.
O passeio na floresta pode ser visto como uma viagem ao inconsciente. Nessa viagem confusa, assustadora e misteriosa, o espírito pode perder-se mas também pode, finalmente, reunir-se à centelha divina…

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Retrato de Dorian Gray

Depois de ter estudado, na faculdade, há mais de quinze anos, esta obra-prima da literatura, ainda hoje recordo alguns dos seus principais temas: o mito do duplo ou doppelganger; os conceitos de Beleza e Verdade; a Fisiognomia (crença de que os traços físicos são reveladores do carácter); a arte vs. a moralidade / ética; a secreta vida dupla da sociedade vitoriana e sua obsessão pelo mal, a culpa, a repressão e a consciência; a entrega da alma ao diabo em troca de prazeres terrenos; e diversos “ismos” (narcisismo, hedonismo, esteticismo, dandismo, etc).

Ao longo da narrativa, questiona-se a autenticidade das aparências – tema essencialmente vitoriano e, atrevo-me a dizer, ainda actual, nesta sociedade contemporânea obcecada pela beleza física e makeovers.

Dorian Gray não consegue a harmonia entre a alma e o corpo e, no fim da obra, o retrato, verdadeiro herói do drama, é restituído à sua devida beleza e a ordem moral é restaurada…

Há noites em que, apenas iluminada pelo luar, olho fixamente o meu rosto no espelho. Surge-me então um espectro, de faces chupadas e olhos desmesuradamente grandes onde se lêem mágoas, angústias, desesperos, raivas e medos acumulados durante trinta e seis anos. Estendo-lhe a mão e…


The Picture of Dorian Gray, de Albert Lewin, 1945

terça-feira, 20 de abril de 2010

O Duplo : La Double Vie de Véronique de Krzysztof Kieslowski

Seguramente um dos filmes da minha vida e inspirador do título deste blogue. La Double Vie de Véronique é um filme sublime, mágico e misterioso.

A francesa Véronique e a polaca Veronika – uma alma dividida em dois corpos. Funcionando mais num nível espiritual do que religioso, o filme explora a ideia de todos nós termos um duplo que vive a sua vida nalgum outro lugar. Diz-se que ver o seu próprio doppelganger é sinal de morte iminente e, de facto, pouco tempo depois de avistar acidentalmente Véronique num autocarro, Veronika morre…

Este filme fascina-me pelas suas “coincidências”(Alexander diz a Véronique que mantém duas marionetas iguais para o caso de uma se partir…), sincronicidades e pelas suas inconsistências e ausência de resolução final – não é assim mesmo a vida? De repente, a nossa realidade quotidiana é subtilmente impregnada de poesia…

A minha cena favorita – a das marionetas. A vida e a morte manipuladas pelo criador, a metamorfose e a ascensão da alma...


La Double Vie de Verónique, de Krzysztof Kieslowski, 1991
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