Eu preciso de silêncio
e solidão
e de um traje de linguagem bem ajustado.
Eu preciso de um segredo
e de uma sugestão de realidade muito firme.
A minha função agora
é tentar me libertar
das minhas próprias formulações.
É um luto viver.
Se não entendermos assim
nunca seremos felizes.
Kristina Lugn (trad. de Fernanda Sarmatz Åkesson)
sexta-feira, 3 de janeiro de 2020
quarta-feira, 25 de dezembro de 2019
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
O menino louco
Ao menino louco da casa ao lado
tinham-no preso. À noite ouvíamo-lo
a uivar. E eu sussurrava à minha almofada:
Obrigado, meu Deus! Ao menos eu estou livre.
O menino louco já não grita.
No entanto o grito acorda-me
nas noites negras sem estrelas.
Então não é o menino. Sou eu.
Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964
tinham-no preso. À noite ouvíamo-lo
a uivar. E eu sussurrava à minha almofada:
Obrigado, meu Deus! Ao menos eu estou livre.
O menino louco já não grita.
No entanto o grito acorda-me
nas noites negras sem estrelas.
Então não é o menino. Sou eu.
Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Eu sou o poema
Sou o poema que ninguém escreveu
Sou a carta que sempre se queimou.
Sou o caminho que ninguém tomou
e o som que nunca soou.
Sou a oração dos lábios mudos
Sou o filho de uma mulher não nascida,
uma corda que nenhuma mão estendeu
uma fogueira que ninguém acendeu.
Acordai-me! Redimi-me! Levantai-me já
da terra e disponha, de espírito e corpo e alma!
Mas quando rezo, só respostas incompletas.
Eu sou as coisas que não ocorrem nunca.
Inger Hagerup, Jeg gikk meg vill i skogene, 1939
Sou a carta que sempre se queimou.
Sou o caminho que ninguém tomou
e o som que nunca soou.
Sou a oração dos lábios mudos
Sou o filho de uma mulher não nascida,
uma corda que nenhuma mão estendeu
uma fogueira que ninguém acendeu.
Acordai-me! Redimi-me! Levantai-me já
da terra e disponha, de espírito e corpo e alma!
Mas quando rezo, só respostas incompletas.
Eu sou as coisas que não ocorrem nunca.
Inger Hagerup, Jeg gikk meg vill i skogene, 1939
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
Detalhe de uma paisagem invisível de novembro
No meio do país de névoa que se chama eu
há um velho sinal de trânsito sem caminho.
Ali está assinalando com a sua carcomida flecha
até aos pântanos e quilómetros de neblina.
Em vão procuro nomes e sinais.
Nevões e chuvas tudo apagaram.
Ali esteve uma vez o caminho para que me encaminhava.
Quando desapareceu e quando me perdi?
Vou às cegas como um invisual até essa palavra
que me indicaria o caminho da minha casa.
No meio do país de névoa que se chama eu
há um sinal sem caminho que me assusta.
Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964
há um velho sinal de trânsito sem caminho.
Ali está assinalando com a sua carcomida flecha
até aos pântanos e quilómetros de neblina.
Em vão procuro nomes e sinais.
Nevões e chuvas tudo apagaram.
Ali esteve uma vez o caminho para que me encaminhava.
Quando desapareceu e quando me perdi?
Vou às cegas como um invisual até essa palavra
que me indicaria o caminho da minha casa.
No meio do país de névoa que se chama eu
há um sinal sem caminho que me assusta.
Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964
sexta-feira, 22 de novembro de 2019
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
Zärtliche Nacht
Zärtliche Nacht Tender night
Es kommt die Nacht There comes the night
da liebst du when you love
da liebst du when you love
nicht was schön – what is not beautiful –
was häßlich ist. but ugly.
was häßlich ist. but ugly.
Nicht was steigt – What doesn’t rise –
was fallen muß. but has to fall.
was fallen muß. but has to fall.
Nicht wo du helfen kannst – When you cannot help –
wo du hilflos bist. but when you are helpless.
wo du hilflos bist. but when you are helpless.
Es ist eine zärtliche Nacht It is a tender night
die Nacht da du liebst the night when you love
die Nacht da du liebst the night when you love
was Liebe what love
nicht retten kann. cannot save.
nicht retten kann. cannot save.
Hilde Domin, Zärtliche Nacht
terça-feira, 22 de outubro de 2019
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
Luz da lâmpada
A lâmpada é igual,
a luz é igual.
Mas a diferença operou-se em mim.
A lâmpada é igual,
a luz é igual.
Mas já não vejo o que via.
Acendia a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes via a imagem d'Ela.
Acendo a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes encontro o vácuo da moldura.
Acendo a lâmpada e nada vejo do que via sempre.
Apago a lâmpada
para criar, na escuridão,
o que não posso encontrar na realidade.
Nunca mais acenderei a lâmpada
porque me quero lembrar da outra luz.
Mário-Henrique Leiria
a luz é igual.
Mas a diferença operou-se em mim.
A lâmpada é igual,
a luz é igual.
Mas já não vejo o que via.
Acendia a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes via a imagem d'Ela.
Acendo a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes encontro o vácuo da moldura.
Acendo a lâmpada e nada vejo do que via sempre.
Apago a lâmpada
para criar, na escuridão,
o que não posso encontrar na realidade.
Nunca mais acenderei a lâmpada
porque me quero lembrar da outra luz.
Mário-Henrique Leiria
in Obras Completas II - Poesia
domingo, 22 de setembro de 2019
Poemas de amor e desamor
O amor não existe
ou é invisível e precisa de seres
vivos como tu e eu
para se deixar ver
ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir
§
eu só queria te dizer
que ele chega, que ele existe
que ele chega para todos, ao menos uma única vez
que ele estava aqui na sala
enquanto as cortinas tremulavam na janela aberta
e enquanto eu procurava um lápis
e que ele desapareceu tão safo
quanto o grande amor que tivemos
ele estava aqui, e como determinado cheiro
de determinado cabelo e determinado vestido
que ficou pendurado lá fora num determinado clima bastante húmido
já não estava mais aqui
quando me sentei para escrever
§
ou é invisível e precisa de seres
vivos como tu e eu
para se deixar ver
ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir
§
eu só queria te dizer
que ele chega, que ele existe
que ele chega para todos, ao menos uma única vez
que ele estava aqui na sala
enquanto as cortinas tremulavam na janela aberta
e enquanto eu procurava um lápis
e que ele desapareceu tão safo
quanto o grande amor que tivemos
ele estava aqui, e como determinado cheiro
de determinado cabelo e determinado vestido
que ficou pendurado lá fora num determinado clima bastante húmido
já não estava mais aqui
quando me sentei para escrever
§
Eis-nos aqui. É noite.
Chegamos aqui e desaparecemos de novo,
e feito os amantes nos deixamos
todos vamos nos deixar, todos
como o mundo com certeza também vai nos deixar.
Ou seja lá como é que era mesmo.
A geladeira treme amedrontada na cozinha.
As crianças dormem nas suas camas quentes. Os cérebros ardem
como as metrópoles cada qual debaixo de sua abóbada escura.
Geir Gulliksen, trad. Luciano Dutra
Chegamos aqui e desaparecemos de novo,
e feito os amantes nos deixamos
todos vamos nos deixar, todos
como o mundo com certeza também vai nos deixar.
Ou seja lá como é que era mesmo.
A geladeira treme amedrontada na cozinha.
As crianças dormem nas suas camas quentes. Os cérebros ardem
como as metrópoles cada qual debaixo de sua abóbada escura.
Geir Gulliksen, trad. Luciano Dutra
domingo, 7 de julho de 2019
quarta-feira, 3 de julho de 2019
Ce que je n'ai su te dire
Ce que je n'ai su te dire
Est juste là
Dans cette ombre fragile
Toujours proche
Dans ces mots vulnérables
Et quelques autres
Où frémit l'invisibilité
De ceux que je ne te dirais pas.
Solenn Emmvrique
Est juste là
Dans cette ombre fragile
Toujours proche
Dans ces mots vulnérables
Et quelques autres
Où frémit l'invisibilité
De ceux que je ne te dirais pas.
Solenn Emmvrique
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