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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Eu preciso de silêncio

Eu preciso de silêncio
e solidão
e de um traje de linguagem bem ajustado.
Eu preciso de um segredo
e de uma sugestão de realidade muito firme.
A minha função agora
é tentar me libertar
das minhas próprias formulações.

É um luto viver.
Se não entendermos assim
nunca seremos felizes.

Kristina Lugn (trad. de Fernanda Sarmatz Åkesson)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O menino louco

Ao menino louco da casa ao lado
tinham-no preso. À noite ouvíamo-lo
a uivar. E eu sussurrava à minha almofada:
Obrigado, meu Deus! Ao menos eu estou livre.

O menino louco já não grita.
No entanto o grito acorda-me
nas noites negras sem estrelas.
Então não é o menino. Sou eu.

Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Eu sou o poema

Sou o poema que ninguém escreveu
Sou a carta que sempre se queimou.

Sou o caminho que ninguém tomou
e o som que nunca soou.

Sou a oração dos lábios mudos
Sou o filho de uma mulher não nascida,

uma corda que nenhuma mão estendeu
uma fogueira que ninguém acendeu.

Acordai-me! Redimi-me! Levantai-me já
da terra e disponha, de espírito e corpo e alma!

Mas quando rezo, só respostas incompletas.
Eu sou as coisas que não ocorrem nunca.

Inger Hagerup, Jeg gikk meg vill i skogene, 1939

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Detalhe de uma paisagem invisível de novembro

No meio do país de névoa que se chama eu
há um velho sinal de trânsito sem caminho.

Ali está assinalando com a sua carcomida flecha
até aos pântanos e quilómetros de neblina.

Em vão procuro nomes e sinais.
Nevões e chuvas tudo apagaram.

Ali esteve uma vez o caminho para que me encaminhava.
Quando desapareceu e quando me perdi?

Vou às cegas como um invisual até essa palavra
que me indicaria o caminho da minha casa.

No meio do país de névoa que se chama eu
há um sinal sem caminho que me assusta.


Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Zärtliche Nacht

Zärtliche Nacht                      Tender night
Es kommt die Nacht                There comes the night
da liebst du                      when you love
nicht was schön –                 what is not beautiful –
was häßlich ist.                  but ugly.
Nicht was steigt –                What doesn’t rise –
was fallen muß.                       but has to fall.
Nicht wo du helfen kannst –       When you cannot help –
wo du hilflos bist.               but when you are helpless.
Es ist eine zärtliche Nacht       It is a tender night
die Nacht da du liebst            the night when you love
was Liebe                         what love
nicht retten kann.                cannot save.

Hilde Domin, Zärtliche Nacht

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Luz da lâmpada

A lâmpada é igual,
a luz é igual.
Mas a diferença operou-se em mim.
A lâmpada é igual,
a luz é igual.
Mas já não vejo o que via.
Acendia a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes via a imagem d'Ela.
Acendo a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes encontro o vácuo da moldura.
Acendo a lâmpada e nada vejo do que via sempre.
Apago a lâmpada
para criar, na escuridão,
o que não posso encontrar na realidade.
Nunca mais acenderei a lâmpada
porque me quero lembrar da outra luz.


Mário-Henrique Leiria
in Obras Completas II - Poesia

domingo, 22 de setembro de 2019

Poemas de amor e desamor

O amor não existe
ou é invisível e precisa de seres

vivos como tu e eu
para se deixar ver

ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir


§

eu só queria te dizer

que ele chega, que ele existe
que ele chega para todos, ao menos uma única vez
que ele estava aqui na sala
enquanto as cortinas tremulavam na janela aberta
e enquanto eu procurava um lápis
e que ele desapareceu tão safo
quanto o grande amor que tivemos

ele estava aqui, e como determinado cheiro
de determinado cabelo e determinado vestido
que ficou pendurado lá fora num determinado clima bastante húmido
já não estava mais aqui
quando me sentei para escrever

§

Eis-nos aqui. É noite.
Chegamos aqui e desaparecemos de novo,
e feito os amantes nos deixamos

todos vamos nos deixar, todos
como o mundo com certeza também vai nos deixar.
Ou seja lá como é que era mesmo.

A geladeira treme amedrontada na cozinha.
As crianças dormem nas suas camas quentes. Os cérebros ardem
como as metrópoles cada qual debaixo de sua abóbada escura.


Geir Gulliksen, trad. Luciano Dutra

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Ce que je n'ai su te dire

Ce que je n'ai su te dire
Est juste là
Dans cette ombre fragile
Toujours proche
Dans ces mots vulnérables
Et quelques autres
Où frémit l'invisibilité
De ceux que je ne te dirais pas.

Solenn Emmvrique
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