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quarta-feira, 4 de março de 2020

Quando um sonho morre

2

a dizer outra vez

se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

palavras rançosas a revolver outra vez no coração

amor amor amor pancada da velha batedeira
pilando o soro inalterável
das palavras

aterrorizado outra vez

de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar

se te amarem

3


a não ser que te amem





Samuel Beckett, As escadas não têm degraus 3trad. Miguel Esteves Cardoso, Livros Cotovia, 

março 1990

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Eu preciso de silêncio

Eu preciso de silêncio
e solidão
e de um traje de linguagem bem ajustado.
Eu preciso de um segredo
e de uma sugestão de realidade muito firme.
A minha função agora
é tentar me libertar
das minhas próprias formulações.

É um luto viver.
Se não entendermos assim
nunca seremos felizes.

Kristina Lugn (trad. de Fernanda Sarmatz Åkesson)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O menino louco

Ao menino louco da casa ao lado
tinham-no preso. À noite ouvíamo-lo
a uivar. E eu sussurrava à minha almofada:
Obrigado, meu Deus! Ao menos eu estou livre.

O menino louco já não grita.
No entanto o grito acorda-me
nas noites negras sem estrelas.
Então não é o menino. Sou eu.

Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Eu sou o poema

Sou o poema que ninguém escreveu
Sou a carta que sempre se queimou.

Sou o caminho que ninguém tomou
e o som que nunca soou.

Sou a oração dos lábios mudos
Sou o filho de uma mulher não nascida,

uma corda que nenhuma mão estendeu
uma fogueira que ninguém acendeu.

Acordai-me! Redimi-me! Levantai-me já
da terra e disponha, de espírito e corpo e alma!

Mas quando rezo, só respostas incompletas.
Eu sou as coisas que não ocorrem nunca.

Inger Hagerup, Jeg gikk meg vill i skogene, 1939

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Detalhe de uma paisagem invisível de novembro

No meio do país de névoa que se chama eu
há um velho sinal de trânsito sem caminho.

Ali está assinalando com a sua carcomida flecha
até aos pântanos e quilómetros de neblina.

Em vão procuro nomes e sinais.
Nevões e chuvas tudo apagaram.

Ali esteve uma vez o caminho para que me encaminhava.
Quando desapareceu e quando me perdi?

Vou às cegas como um invisual até essa palavra
que me indicaria o caminho da minha casa.

No meio do país de névoa que se chama eu
há um sinal sem caminho que me assusta.


Inger Hagerup, Fra hjertets krater, 1964
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