Tinha o que merecia.
No cinema não encontraria melhor. Nos livros,
talvez. Relações ilícitas no século dezanove.
Gente
para quem a carne era coisa de putas e de pobres,
mulheres pagas para
limpar o chão e abrir as pernas.
Parir, se tivesse de ser, algures na província,
por entre porcos e paredes de pedra.
O resto era consigo. Conseguia ver-se,
sozinha com a criança,
a avançar pelas ruas e bater às portas.
Numas mais escorraçada do que os cães, noutras,
piedosas,
a dizerem-lhe que entrasse pelas traseiras.
Comeria na cozinha com os criados.
Madalena de Castro Campos
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
sábado, 23 de dezembro de 2017
É tão lindo o Natal
[poema de Natal]
Corto os pulsos de dentro para fora,
sangro para dentro, lâminas de ruído
afiadas em ruas iluminadas, centros
comerciais, baías com árvores nunca
vistas, flutuantes, papel, x-acto, fita
cola, os pulsos cortados pelo lixo a
arder na noite de consoada, infindo
lixo a trazer felicidade, ilhas de lixo,
em alto mar, os pulsos a sangrar para
dentro famílias inteiras, eu calado a
embrulhar-me no lixo para me dar de
presente a quem me queira esbanjar.
Henrique Manuel Bento Fialho
Corto os pulsos de dentro para fora,
sangro para dentro, lâminas de ruído
afiadas em ruas iluminadas, centros
comerciais, baías com árvores nunca
vistas, flutuantes, papel, x-acto, fita
cola, os pulsos cortados pelo lixo a
arder na noite de consoada, infindo
lixo a trazer felicidade, ilhas de lixo,
em alto mar, os pulsos a sangrar para
dentro famílias inteiras, eu calado a
embrulhar-me no lixo para me dar de
presente a quem me queira esbanjar.
Henrique Manuel Bento Fialho
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
I'm not here
Elegia Pura
Aqui não se passa nada,
salvo o tempo,
irrepetível
música que ressoa,
extinta já,
num coração oco, abandonado,
que alguém toma um momento,
escuta
e arremessa.
Ángel González
Aqui não se passa nada,
salvo o tempo,
irrepetível
música que ressoa,
extinta já,
num coração oco, abandonado,
que alguém toma um momento,
escuta
e arremessa.
Ángel González
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
You do something to me
Mudança
Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassóis a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança,
de ti.
Adam Zagajewski, in "Sombras de Sombras"
Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassóis a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança,
de ti.
Adam Zagajewski, in "Sombras de Sombras"
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
I was here
Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.
Vasant Abaji Dahake
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.
Vasant Abaji Dahake
![]() |
| Anatol Knotek |
sábado, 2 de dezembro de 2017
terça-feira, 28 de novembro de 2017
Julia Dream
É fácil de encontrar o paraíso:
mesmo em novembro, quando a luz é breve
e o sol adormece nos telhados,
há um jardim onde os meus passos voam
e cada sonho volta a ser igual
ao secreto sentido que estremece
entre as asas das aves, tão velozes
como o vento que leva as nossas vidas.
Fernando Pinto do Amaral
mesmo em novembro, quando a luz é breve
e o sol adormece nos telhados,
há um jardim onde os meus passos voam
e cada sonho volta a ser igual
ao secreto sentido que estremece
entre as asas das aves, tão velozes
como o vento que leva as nossas vidas.
Fernando Pinto do Amaral
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
Eternity
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
You have no idea
You have no idea
of what I feel about
you
Of how much I
I care about you
Of how much I think
you're amazing and beautiful
Of what I think
we could become
Of how much you make me
happy and sad at the same time
Of how much you make me feel
so alive
Of the butterfly riot that takes place in my stomach
when you talk to me
Of how much you make me
scared
Of how much
you can hurt me
You have no idea.
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
You are welcome to Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
![]() |
| Vivre sa vie, 1962 |
terça-feira, 21 de novembro de 2017
domingo, 19 de novembro de 2017
Pelos passos na areia molhada...
Pelos passos na areia molhada ao fim do dia poder-se-ia pensar
que estou aqui, presente, mas parti por entre brisas fugidias
e estou junto às asas do anjo no azul assustador do mar,
do céu e das sombras; e o peso triste da carne parece-se com o espelho
quebrado dos gestos e das horas, a imagem da presença dos corpos,
uma mão, uma pálpebra, o desenho da pele e a voz escutada do tempo;
o ar do dia dilui-me com frequência no fumo dos limites
e entre duas vagas algodoadas, se parece que sou real, vereis,
entrelaçar-se na tristeza o olho do desejo e o da morte,
e eu estou algures entre dois azuis gémeos que vêm apagar a noite.
Seja como for o leve vento de neve voltará de certeza
êxito estranho do avesso dos dias; um anjo pousou
a mão na mesa, à beira-mar, e a cortina
dança entre o azul e o branco, encantamento do ar,
e seja como for as mãos nuas das horas alisadas
não dizem quase nada, levadas pelo anjo triste de cabelos
de ouro, e sopro de pássaros; pousada, a mão parece-se
com a sombra do mar porque ainda aí vivem homens, asas cortadas,
no côncavo da palma do deus grego, a gota de orvalho
que o caminho cego dos dias nos deixou para estancar a sede.
Joan-Ives Casanova
que estou aqui, presente, mas parti por entre brisas fugidias
e estou junto às asas do anjo no azul assustador do mar,
do céu e das sombras; e o peso triste da carne parece-se com o espelho
quebrado dos gestos e das horas, a imagem da presença dos corpos,
uma mão, uma pálpebra, o desenho da pele e a voz escutada do tempo;
o ar do dia dilui-me com frequência no fumo dos limites
e entre duas vagas algodoadas, se parece que sou real, vereis,
entrelaçar-se na tristeza o olho do desejo e o da morte,
e eu estou algures entre dois azuis gémeos que vêm apagar a noite.
Seja como for o leve vento de neve voltará de certeza
êxito estranho do avesso dos dias; um anjo pousou
a mão na mesa, à beira-mar, e a cortina
dança entre o azul e o branco, encantamento do ar,
e seja como for as mãos nuas das horas alisadas
não dizem quase nada, levadas pelo anjo triste de cabelos
de ouro, e sopro de pássaros; pousada, a mão parece-se
com a sombra do mar porque ainda aí vivem homens, asas cortadas,
no côncavo da palma do deus grego, a gota de orvalho
que o caminho cego dos dias nos deixou para estancar a sede.
Joan-Ives Casanova
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