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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Drama Romântico

Tinha o que merecia.
No cinema não encontraria melhor. Nos livros,
talvez. Relações ilícitas no século dezanove.
Gente
para quem a carne era coisa de putas e de pobres,
mulheres pagas para
limpar o chão e abrir as pernas.
Parir, se tivesse de ser, algures na província,
por entre porcos e paredes de pedra.
O resto era consigo. Conseguia ver-se,
sozinha com a criança,
a avançar pelas ruas e bater às portas.
Numas mais escorraçada do que os cães, noutras,
piedosas,
a dizerem-lhe que entrasse pelas traseiras.
Comeria na cozinha com os criados.


Madalena de Castro Campos



sábado, 23 de dezembro de 2017

É tão lindo o Natal

[poema de Natal]

Corto os pulsos de dentro para fora,
sangro para dentro, lâminas de ruído
afiadas em ruas iluminadas, centros
comerciais, baías com árvores nunca

vistas, flutuantes, papel, x-acto, fita
cola, os pulsos cortados pelo lixo a
arder na noite de consoada, infindo
lixo a trazer felicidade, ilhas de lixo,

em alto mar, os pulsos a sangrar para
dentro famílias inteiras, eu calado a
embrulhar-me no lixo para me dar de
presente a quem me queira esbanjar.


Henrique Manuel Bento Fialho

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

I'm not here

Elegia Pura

Aqui não se passa nada,
salvo o tempo,
irrepetível
música que ressoa, 
extinta já, 
num coração oco, abandonado, 
que alguém toma um momento, 
escuta
e arremessa.

Ángel González

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

You do something to me

Mudança

Havia meses que não escrevia 
nem um único poema. 
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder 
e nas causas da obediência. 
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação), 
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros 
e o silêncio da noite. 
Via os girassóis a pendurarem 
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído 
passeasse por entre os jardins. 
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos 
se escondiam nas curvaturas dos muros. 
Dava longos passeios, 
sedento duma coisa só:
dum relâmpago, 
duma mudança, 
de ti. 

Adam Zagajewski, in "Sombras de Sombras"


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

I was here

Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.

Vasant Abaji Dahake


Anatol Knotek

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Julia Dream

É fácil de encontrar o paraíso:
mesmo em novembro, quando a luz é breve
e o sol adormece nos telhados,
há um jardim onde os meus passos voam
e cada sonho volta a ser igual
ao secreto sentido que estremece
entre as asas das aves, tão velozes
como o vento que leva as nossas vidas. 


Fernando Pinto do Amaral

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

You have no idea

You have no idea 
of what I feel about
you
Of how much I 
I care about you
Of how much I think
you're amazing and beautiful
Of what I think 
we could become
Of how much you make me
happy and sad at the same time
Of how much you make me feel
so alive
Of the butterfly riot that takes place in my stomach
when you talk to me
Of how much you make me
scared
Of how much
you can hurt me

You have no idea.



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

You are welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny


Vivre sa vie, 1962

terça-feira, 21 de novembro de 2017

domingo, 19 de novembro de 2017

Pelos passos na areia molhada...

Pelos passos na areia molhada ao fim do dia poder-se-ia pensar 
que estou aqui, presente, mas parti por entre brisas fugidias 
e estou junto às asas do anjo no azul assustador do mar, 
do céu e das sombras; e o peso triste da carne parece-se com o espelho 
quebrado dos gestos e das horas, a imagem da presença dos corpos, 
uma mão, uma pálpebra, o desenho da pele e a voz escutada do tempo; 
o ar do dia dilui-me com frequência no fumo dos limites 
e entre duas vagas algodoadas, se parece que sou real, vereis, 
entrelaçar-se na tristeza o olho do desejo e o da morte, 
e eu estou algures entre dois azuis gémeos que vêm apagar a noite.

Seja como for o leve vento de neve voltará de certeza 
êxito estranho do avesso dos dias; um anjo pousou 
a mão na mesa, à beira-mar, e a cortina 
dança entre o azul e o branco, encantamento do ar, 
e seja como for as mãos nuas das horas alisadas 
não dizem quase nada, levadas pelo anjo triste de cabelos 
de ouro, e sopro de pássaros; pousada, a mão parece-se 
com a sombra do mar porque ainda aí vivem homens, asas cortadas, 
no côncavo da palma do deus grego, a gota de orvalho 
que o caminho cego dos dias nos deixou para estancar a sede.

Joan-Ives Casanova


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