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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Há uma face que não sei

Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.

Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.

Há uma face
página onde a sombra se faz face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face. 

Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.

Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.

Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face. 

Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.

Ninguém nos vê nem nos verá jamais.

Respirar a sombra viva.


António Ramos Rosa

The face of another, Tanin No Kao, 1966

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Waiting

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.

António Lobo Antunes

Brassai, Paris, anos 30



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Destino

Matamos o que amamos. O mais
nunca esteve vivo – nunca.
Nem um só, assim perto. A nenhum outro fere
um esquecimento, uma ausência, às vezes menos.
Matamos o que amamos. Que cesse de imediato esta asfixia
de respirar por pulmão alheio.
O ar é lá bastante
para os dois! Não basta a terra
para os corpos juntos,
parca porra parca a ração da esperança,
tão parca como a dor de partilhar.

O homem é animal de solidões,
cervo com uma flecha no flanco
que foge e se dessangra.

Ah, mas o ódio, a sua ferida insone
de pupilas em vidro; a sua postura,
em torno, repouso e ameaça.

O cervo vai a beber e na água aparece
o reflexo de um tigre:
o cervo bebe a água e a imagem. E torna-se
- antes que o devorem (cúmplice, fascinado) –
igual ao seu inimigo.
Só damos vida ao que odiamos.

Rosario Castellanos (1925-1974)

tradução de António Cabrita


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

eu durmo comigo

eu durmo comigo
deitada de bruços eu durmo comigo
virada para a direita eu durmo comigo
eu durmo comigo abraçada comigo
não há noite tão longa em que eu não durma comigo
como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo
eu durmo comigo debaixo da noite estrelada
eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário
eu durmo comigo às vezes de óculos
e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo
e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir do lado.


Angélica Freitas in Um Útero é do Tamanho de um Punho

Andrew Wyeth

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

The Awakening Conscience

Meryl Streep em A Amante do Tenente Francês, de Karel Reisz, 1981

Talvez além do que tu vês
não esteja nada
nem a alada criatura com que sonhas
nem sequer a sombra da sombra de uma sombra

Talvez nisso que vês só haja espelho
de um desejo sem rosto e sem esperança
que toda a vida (às vezes) seja apenas
esse deserto crescendo à tua volta

Aprende a não amar o amor
a nada querer
não desejar o desejo
nada ter.

Bernardo Pinto de Almeida (n. 1954)

The Awakening Conscience, William Holman Hunt, 1953


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Táxis, amigos e guarda-chuvas

Acabo de o jogar fora,
meia hora sob a tormenta
- à espera de um maldito táxi -
deu cabo dele.
Mas como se comportou.
Essa a diferença:
os táxis são como certos amigos,
quando precisas deles nunca estão.
Os guarda-chuvas, em troca, morrem por ti.

Karmelo C. Iribarren
(trad. de Albino M.)

Christopher Thompson Grimsby, 1969

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Dizes que me amas...

Dizes que me amas de uma tal forma,
que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.

Amalia Bautista (n.1962)

Buster Keaton em The Scarecrow, 1920

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Saber viver é vender a alma ao diabo

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(«Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?...) 

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas. 

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
  não pensam noutra coisa
  senão no arame, nos carcanhóis,
  na estilha, nos pintores, nas aflitas,
  no tojé, na grana, no tempero,
  nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...


Alexandre O'Neill, "Poesias Completas 1951/1981", Imprensa Nacional Casa da Moeda

Buster Keaton, O General, 1926



sábado, 19 de janeiro de 2013

o terrorista...olha



A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.

O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A esta distância ficará livre de perigo
e, quanto a vista, é como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo… entra.
Um homem de óculos escuros… sai.
Rapazes de jeans… conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.

Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.
Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
isso se saberá pelas notícias.

Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo que sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
faltam treze segundos para as treze e vinte,
e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.

São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba… explode.


Wislawa Szymborska in" paisagem com grão de areia", trad. júlio sousa gomes, Relógio d’Água 1998

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Just make it stop

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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

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