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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Bonjour tristesse

Julgava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar-me,
quando pude por fim fechar os olhos,
esquecer-me de ti, dessas argúcias,
dessa tua insistência, teu mau génio,
tua capacidade de anular-me.
Julgava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, mas acordo,
encontro-te de novo junto a mim,
dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,
invades-me, afogas-me, diante
dos meus olhos, em frente à minha vida,
por sob a minha sombra, nas entranhas,
em cada golpe do meu sangue, entras
por meu nariz quando respiro, vês
pelas minhas pupilas, lanças fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora que faço?, como posso
desterrar-te de mim ou adaptar-me
a conviver contigo? Principie-se
por demonstrar maneiras impecáveis.
Bom dia, tristeza.


Amalia Bautista


À peine défigurée


Adieu tristesse,
Bonjour tristesse.
Tu es inscrite dans les lignes du plafond.
Tu es inscrite dans les yeux que j'aime

Tu n'es pas tout à fait la misère,
Car les lèvres les plus pauvres te dénoncent
Par un sourire.

Bonjour tristesse.
Amour des corps aimables.
Puissance de l'amour
Dont l'amabilité surgit
Comme un monstre sans corps.
Tête désappointée.
Tristesse, beau visage.



Paul Éluard

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Out of Time

Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorizantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
em não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas folhas
e estou-me nas tintas para elas,
retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta ao pediatra,
responder ao correio, estender roupa,
declarar rendimentos, ler uns livros,

fazer umas chamadas telefónicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo todo que quisesse
para fazer só coisas esquisitas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura.

Amalia Bautista

sábado, 22 de junho de 2013

A vida responsável

Conduzir mas sem ter um acidente, comprar massas e desodorizantes e cortar as unhas às minhas filhas. Madrugar outra vez e ter cuidado em não dizer inconveniências, esmerar-me na prosa de umas folhas e estou-me nas tintas para elas, retocar de vermelho cada face. Lembrar-me da consulta ao pediatra, responder ao correio, estender roupa, declarar rendimentos, ler uns livros, fazer umas chamadas telefónicas. Bem gostaria de me dar ao luxo de ter o tempo todo que quisesse para fazer só coisas esquisitas, coisas desnecessárias, prescindíveis e, sobretudo, inúteis e patetas. Por exemplo, amar-te com loucura.

Amalia Bautista


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Dizes que me amas...

Dizes que me amas de uma tal forma,
que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.

Amalia Bautista (n.1962)

Buster Keaton em The Scarecrow, 1920

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