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segunda-feira, 11 de março de 2019

Motivo Antigo

Mar claro,
tranquila água
– por meu sorriso
de mágoa.

Céu longo,
nuvem redonda
– por meu olhar
de sombra.

Caminho andado,
areia rude
– por meu rosto
de amargura.


Glória de Sant’Anna in Livro de Água, 1961

Pouco a pouco

Pouco a pouco me esqueço, e não sei nada.
Assim será a morte, e o que da morte
é sono e dor aguda que me crispa plácido
em sonhos dissolvidos sem anseio ou mágoa.

Este ficar de longe, num cansaço;
o ouvir das vozes como outrora infância;
o estar-se imóvel mais, e devagar
perder, um após outro, o gosto a um gesto

mesmo pensado nesta horizontal
que alastra entre o passado e coisa alguma.
Este não ter senão a solidão
como silêncio e treva finalmente aceites.

A vida tão vivida e desejada,
o ser como o fazer, o sexo em tudo visto,
as coisas e as palavras possuídas,
tudo se não dissolve mas se afasta
alheio e sem saudade. Nem repouso
ou calmo abjurar da fúria amarga.
Apenas não sei nada, não recordo nada,
já nada quero, e aos outros deixo tudo.

Jorge de Sena


Anatol Knotek

domingo, 3 de março de 2019

You've got to learn

Dreams

Silver Springs

Windmills of your mind

Like a circle in a spiral, like a wheel within a wheel
Never ending or beginning on an ever spinning reel
As the images unwind, like the circles that you find
In the windmills of your mind


Les moulins de mon coeur

Une pierre que l'on jette
Dans l'eau vive d'un ruisseau
Et qui laisse derrière elle
Des milliers de ronds dans l'eau
Au vent des quatre saisons
Tu fais tourner de ton nom
Tous les moulins de mon coeur


Bang Bang

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Hope is a dangerous thing for a woman like me to have - but I have it

The Caretaker



Gerrel Saunders

A si mesmo

Repousa para sempre, 
meu exausto coração. Morto é o engano extremo 
que eu supusera eterno. É morto. E sinto 
que em nós de enganos caros 
a mais da esp'rança, o desejar é extinto. 
Repousa. Já bastante 
hás palpitado. Coisa alguma vale 
o teu bater, nem de suspiros é digna 
a terra. Tédio amargo
a vida, e nada mais; e lama é o mundo.
Quieto, pois. Desespera
por uma última vez. À raça humana o fado
não deu mais que o morrer. Agora te despreza
a natureza, o brutal
poder que, oculto, contra nós impera,
e a infinda vaidade do que existe.

Giacomo Leopardi

Ghismonda com o coração de Guiscardo (detalhe), Bernardino Mei, c. 1650

The heart dies a slow death

The heart dies a slow death. Shedding each hope as leaves, until one day there are none. No hopes. Nothing remains.

Memoirs of a Geisha (2005)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Melody Noir

Quem é esta mulher, 
a sempre triste,
que vive no meu coração? 
Quis conquistá-la mas não consegui.

Adornei-a com grinaldas
e cantei em seu louvor
Por um momento
bailou o sorriso no seu rosto, 
mas logo se desvaneceu.

E disse-me cheia de pena: 
— A minha alegria não está em ti.

Comprei-lhe argolas preciosas, 
abanei-a com leques recamados de diamantes, 
deitei-a em cama de oiro 
Bateu as pálpebras 
como um relâmpago de alegria
que logo se apagou.

E disse-me cheia de pena:
— Não está nessas coisas a minha alegria.

Sentei-a num carro de triunfo, 
e passeei-a por toda a terra. 
Milhares de corações conquistados
caíram humildes a seus pés, 
e as aclamações reboaram pelo céu 
Durante um momento
brilhou o orgulho nos seus olhos, 
mas logo se desfez em lágrimas.

E disse cheia de pena:
— Não está na vitória a minha alegria.

Perguntei-lhe:
— Que queres então? 
Respondeu-me:
— Espero alguém 
que não sei como se chama. 
Depois calou-se.

E passa os dias a dizer cheia de pena:
— Quando virá o amado desconhecido?
Quando o conhecerei para sempre?

Rabindranath Tagore


Canta canta mi luna mi luna llena 
Esta melodia que es el abismo dentro de mi 
El abismo dentro de mi 
Mi luna mi luna llena

 

Dream of the Phone Booth

My story’s told in the mis-dial’s
hesitance & anonyms of crank calls,

in the wires’ electric elegy
& glass expanded by the moth

flicker of filament. I call a past
that believes I’m dead. On the concrete

here, you can see where
I stood in rust, lashed to the grid.

On the corner of Pine & Idlewood,
I’ve seen a virgin on her knees

before the angel
of a streetlight & Moses stealing the Times

to build a fire. I’ve seen the city fly
right through a memory & not break

its neck. But the street still needs a shrine,
so return my ringing heart & no one

to answer it, a traveler whose only destination is
waywardness. Forgive us

our apologies, the bees in our bells, the receiver’s
grease, days horizoned

into words. If we stand
monument to anything,

it’s that only some voices belong
to men.


Emilia Phillips


Endeavour, 2017




Ringing heart

"My ringing heart and no one to answer it, a traveler whose only destination is waywardness."

–Dream of the Phone Booth, Emilia Phillips


Endeavour, 2017

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