Às vezes entristece-me esta cama cheia de espaço
Isto de não servir a ninguém
Penso: mas que medida tenho eu
Que nunca sou roupa para os outros
Diria que não é culpa minha
Sei que faço a vida como as outras pessoas
perdida no horizonte de um entardecer canalha
vindo para casa sorrindo aos vizinhos
com um saco de fruta na mão
Penso: todos veem que fui às compras
E que tenho o ar leve de quem parou no café
espalhando perfume
Dizendo o que está certo sobre este dia
Sendo a mulher exacta do que é ser mulher
servindo o balcão a todo o comprimento
E tudo pode mudar depois de uma bica
Talvez eu passe a servir a um corpo
e a cama se torne mais pequena
Como é bom saber que por aqui todos estão vivos
ignorando a minha dificuldade em escolher maçãs
Penso: não pode ser assim tão mau
entrego-me ao destino, há muito que não conto
contigo
serei como todos os outros
E olho a fruta que não como
Pernas nuas e mão no sexo
Cláudia R Sampaio
sábado, 20 de janeiro de 2018
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Le Gai Savoir
J'ai lu
dans tes yeux
dans ta voix
dans la beauté de tes doigts
ce qui ne fait que murmurer
au fond de toi
J'ai lu
ton inquiétude
et ta confiance mêlée
J'ai lu
ce que tu ne dis pas
ce que tu ne te dis pas
ce que je ne savais pas
ce que tu me caches
ce que tu te caches
ce que tu n'a pas voulu
lire avec moi
J'ai lu entre les lignes
de notre émoi
Je voulais déchiffrer
le code
de tes secrets désirs
Je voulais résoudre
l'équation
de toutes tes déchirures
Je voulais percer
l'énigme de ta solitude
Mais tu as soufflé sur la lampe
et je me suis retrouvé
dans le noir…
Gérald Bloncourt
dans tes yeux
dans ta voix
dans la beauté de tes doigts
ce qui ne fait que murmurer
au fond de toi
J'ai lu
ton inquiétude
et ta confiance mêlée
J'ai lu
ce que tu ne dis pas
ce que tu ne te dis pas
ce que je ne savais pas
ce que tu me caches
ce que tu te caches
ce que tu n'a pas voulu
lire avec moi
J'ai lu entre les lignes
de notre émoi
Je voulais déchiffrer
le code
de tes secrets désirs
Je voulais résoudre
l'équation
de toutes tes déchirures
Je voulais percer
l'énigme de ta solitude
Mais tu as soufflé sur la lampe
et je me suis retrouvé
dans le noir…
Gérald Bloncourt
![]() |
| Le Gai Savoir (Jean-Luc Godard, 1969) |
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
A man said to the universe
A man said to the universe:
"Sir, I exist!"
"However", replied the universe,
"The fact has not created in me
A sense of obligation".
Stephen Crane (1871-1900)
"Sir, I exist!"
"However", replied the universe,
"The fact has not created in me
A sense of obligation".
Stephen Crane (1871-1900)
domingo, 7 de janeiro de 2018
Tu chiama una vita
Fatica d'amore, tristezza,
tu chiami una vita
che dentro, profonda, ha nomi
di cieli e giardini.
E fosse mia carne
che dono di male transforma.
Salvatore Quasimodo (1901-1968)
tu chiami una vita
che dentro, profonda, ha nomi
di cieli e giardini.
E fosse mia carne
che dono di male transforma.
Salvatore Quasimodo (1901-1968)
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
Blue
She had blue skin,
And so did he.
He kept it hid
And so did she.
They searched for blue
Their whole life through,
Then passed right by-
And never knew.
Shel Silverstein, Every Thing on It
And so did he.
He kept it hid
And so did she.
They searched for blue
Their whole life through,
Then passed right by-
And never knew.
Shel Silverstein, Every Thing on It
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
domingo, 31 de dezembro de 2017
Burning the Old Year
Letters swallow themselves in seconds.
Notes friends tied to the doorknob,
transparent scarlet paper,
sizzle like moth wings,
marry the air.
So much of any year is flammable,
lists of vegetables, partial poems.
Orange swirling flame of days,
so little is a stone.
Where there was something and suddenly isn’t,
an absence shouts, celebrates, leaves a space.
I begin again with the smallest numbers.
Quick dance, shuffle of losses and leaves,
only the things I didn’t do
crackle after the blazing dies.
Naomi Shihab Nye, Words Under the Words: Selected Poems
Notes friends tied to the doorknob,
transparent scarlet paper,
sizzle like moth wings,
marry the air.
So much of any year is flammable,
lists of vegetables, partial poems.
Orange swirling flame of days,
so little is a stone.
Where there was something and suddenly isn’t,
an absence shouts, celebrates, leaves a space.
I begin again with the smallest numbers.
Quick dance, shuffle of losses and leaves,
only the things I didn’t do
crackle after the blazing dies.
Naomi Shihab Nye, Words Under the Words: Selected Poems
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
Waiting lists
For the end
For the bus
To go
For the bathroom
For a sign
For a table
For a chance
On a friend
For the rain to end
For an answer
For the climax
For the full story
For the solution
To hear
For the phone to ring
For the sun to go down
To come
For the commercial
For the credits to roll
For my name to be called
For the weekend
On line
For the bill
For the cure
In vain
Justine Hermitage
For the bus
To go
For the bathroom
For a sign
For a table
For a chance
On a friend
For the rain to end
For an answer
For the climax
For the full story
For the solution
To hear
For the phone to ring
For the sun to go down
To come
For the commercial
For the credits to roll
For my name to be called
For the weekend
On line
For the bill
For the cure
In vain
Justine Hermitage
![]() |
| Anatol Knotek |
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
Drama Romântico
Tinha o que merecia.
No cinema não encontraria melhor. Nos livros,
talvez. Relações ilícitas no século dezanove.
Gente
para quem a carne era coisa de putas e de pobres,
mulheres pagas para
limpar o chão e abrir as pernas.
Parir, se tivesse de ser, algures na província,
por entre porcos e paredes de pedra.
O resto era consigo. Conseguia ver-se,
sozinha com a criança,
a avançar pelas ruas e bater às portas.
Numas mais escorraçada do que os cães, noutras,
piedosas,
a dizerem-lhe que entrasse pelas traseiras.
Comeria na cozinha com os criados.
Madalena de Castro Campos
No cinema não encontraria melhor. Nos livros,
talvez. Relações ilícitas no século dezanove.
Gente
para quem a carne era coisa de putas e de pobres,
mulheres pagas para
limpar o chão e abrir as pernas.
Parir, se tivesse de ser, algures na província,
por entre porcos e paredes de pedra.
O resto era consigo. Conseguia ver-se,
sozinha com a criança,
a avançar pelas ruas e bater às portas.
Numas mais escorraçada do que os cães, noutras,
piedosas,
a dizerem-lhe que entrasse pelas traseiras.
Comeria na cozinha com os criados.
Madalena de Castro Campos
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
sábado, 23 de dezembro de 2017
É tão lindo o Natal
[poema de Natal]
Corto os pulsos de dentro para fora,
sangro para dentro, lâminas de ruído
afiadas em ruas iluminadas, centros
comerciais, baías com árvores nunca
vistas, flutuantes, papel, x-acto, fita
cola, os pulsos cortados pelo lixo a
arder na noite de consoada, infindo
lixo a trazer felicidade, ilhas de lixo,
em alto mar, os pulsos a sangrar para
dentro famílias inteiras, eu calado a
embrulhar-me no lixo para me dar de
presente a quem me queira esbanjar.
Henrique Manuel Bento Fialho
Corto os pulsos de dentro para fora,
sangro para dentro, lâminas de ruído
afiadas em ruas iluminadas, centros
comerciais, baías com árvores nunca
vistas, flutuantes, papel, x-acto, fita
cola, os pulsos cortados pelo lixo a
arder na noite de consoada, infindo
lixo a trazer felicidade, ilhas de lixo,
em alto mar, os pulsos a sangrar para
dentro famílias inteiras, eu calado a
embrulhar-me no lixo para me dar de
presente a quem me queira esbanjar.
Henrique Manuel Bento Fialho
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
I'm not here
Elegia Pura
Aqui não se passa nada,
salvo o tempo,
irrepetível
música que ressoa,
extinta já,
num coração oco, abandonado,
que alguém toma um momento,
escuta
e arremessa.
Ángel González
Aqui não se passa nada,
salvo o tempo,
irrepetível
música que ressoa,
extinta já,
num coração oco, abandonado,
que alguém toma um momento,
escuta
e arremessa.
Ángel González
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
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