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segunda-feira, 14 de março de 2011

A Sibila

Sibila Palmifera, Dante Gabriel Rossetti


Se o destino futuro ela planeia, todo em folhas,
Como Sibila, insubstancial, fugidia felicidade;
À primeira rajada desvanece-se no ar.
* * * *
Como os planos mundanos parecem folhas de Sibila,
Assim livros de Sibila parecem os dias do homem,
O preço crescendo quando o número diminui.

Edward Young, Pensamentos Nocturnos (1742)

" De regresso à terra, Eneias disse à Sibila: «Sejas uma deusa ou uma mortal amada dos deuses, por mim serás sempre tida em reverência. Quando chegar ao ar superior mandarei construir um templo em tua honra e eu mesmo levarei oferendas.» «Não sou uma deusa», disse a Sibila; «não reclamo sacrifícios ou oferendas. Sou mortal, todavia, se tivesse aceite o amor de Apolo, poderia ter sido imortal. Ele prometera-me a realização do meu desejo se eu consentisse em ser sua. Eu peguei numa mão cheia de areia e disse: «Concede-me tantos aniversários quantos grãos de areia há na minha mão». Infelizmente esqueci-me de pedir a juventude permanente. Também isto ele teria concedido se eu aceitasse o seu amor mas, ofendido com a minha recusa, permitiu que eu envelhecesse. A minha juventude e a minha força juvenil fugiram há muito. Vivi já setecentos anos e, para igualar o número de grãos de areia, tenho ainda de ver trezentas Primaveras e trezentas colheitas. O meu corpo encolhe com o passar dos anos e, em seu devido tempo, deixarei de ser vista, mas a minha voz permanecerá e as gerações futuras respeitarão as minhas palavras.»

Estas palavras finais da Sibila aludiam ao seu poder profético. Na sua caverna costumava ela inscrever em folhas colhidas das árvores os nomes e os destinos dos indivíduos. As folhas assim inscritas estavam arranjadas por ordem dentro da cave e podiam ser consultadas pelos seus devotos. Mas se por acaso, ao abrir-se a porta, o vento entrasse e dispersasse as folhas, a Sibila não ajudava a restaurá-las e o oráculo estava irremediavelmente perdido.

Thomas Bulfinch, A Idade da Fábula

El Cant de la Sibilla - Jordi Savall - voz de Montserrat Figueras

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Lilith


A imagem de Lilith, sob o nome de Lilitu, apareceu primeiramente representando uma categoria de demónios ou espíritos de ventos e tormentas, na Suméria, por volta de 3000 A.C. Por ser associada ao vento, pensava-se que ela era portadora de mal-estares, doenças e mesmo da morte. Ela é também associada a um demónio feminino da noite, na antiga Mesopotâmia. Muitos acreditam que há uma relação entre Lilith e Inanna, deusa suméria da guerra e do prazer sexual.

Segundo o Zohar (comentário rabínico dos textos sagrados), Eva não é a primeira mulher de Adão. Quando Deus criou Adão, ele fê-lo macho e fêmea, depois cortou-o ao meio, chamou a esta nova metade Lilith e deu-a em casamento a Adão. Mas Lilith recusou, não queria ser oferecida a ele, tornar-se desigual, inferior. Na modernidade, isso levou à popularização da noção de que Lilith foi a primeira mulher a rebelar-se contra o sistema patriarcal.

Assim dizia Lilith: ‘‘Por que devo deitar-me debaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Porquê ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.’’ Mas Adão se recusava a inverter as posições, consciente de que existia uma "ordem" que não podia ser transgredida. E assim, ela abandonou o Éden - é o momento em que o Sol se despede e a noite começa a descer o seu manto de escuridão soturna, tal como na ocasião em que Deus fez vir ao mundo os demónios.

Três anjos foram enviados no seu encalço, porém Lilith recusou-se a voltar. E mesmo depois de abandonar o seu marido, ela não aceitava Eva, a sua segunda mulher, e tentaria destruir a humanidade, os filhos do adultério de Adão com Eva. Perseguiria então os homens, principalmente os adúlteros, crianças e recém-casados para se vingar.

Lilith, de John Collier

Lilith afirmou-se como um demónio e é o seu carácter demoníaco que leva a mulher a contrariar o homem e a questionar o seu poder. Desde então, Lilith tornou-se a noiva de Samael, o senhor das forças do mal.

Na tradição medieval, Lilith é muito citada entre as superstições de camponeses, por exemplo, ter um amuleto com o nome dos 3 anjos que a perseguiram para fora do Éden, Sanvi, Sansavi e Samangelaf para protecção, assim como acordar o marido que sorrisse durante o sono, pois ele estaria sendo seduzido por Lilith.

Assim surgiram as lendas vampíricas: Lilith tinha 100 filhos por dia, súcubus quando mulheres e íncubus quando homens, ou simplesmente lilims. Eles se alimentavam da energia do acto sexual e de sangue humano. Também podiam manipular os sonhos humanos, sendo os geradores das poluções noturnas. Uma vez possuído por uma súcubus, dificilmente um homem sobrevivia.

Há certas particularidades interessantes nos ataques de Lilith, como o aperto esmagador sobre o peito, uma vingança por ter sido obrigada a ficar por baixo de Adão, e a sua habilidade de cortar o pénis com a vagina, segundo os relatos católicos medievais. Conta-se, por exemplo, que Lilith surpreendia os homens durante o sono e os envolvia com toda a sua fúria sexual, aprisionando-os na sua lasciva demoníaca, e causando-lhes orgasmos demolidores. Aqueles que resistiam e não morriam, ficavam exangues e acabavam por adoecer. Por isso Lilith também está identificada com o tradicional vampiro.

Ao mesmo tempo que ela representa a liberdade sexual feminina, também representa a castração masculina.

Lilith, de Dante Gabriel Rosseti

Algumas vezes Lilith é associada à deusa grega Hécate, "A mulher escarlate", um demónio que guarda as portas do inferno montada num enorme cão de três cabeças, Cérbero. Hécate, assim como Lilith, representa na cultura grega a vida nocturna e a rebeldia da mulher sobre o homem. Lilith também é considerada um dos Arquidemónios, símbolo da vaidade.

Nos dois últimos séculos, a imagem de Lilith começou a transformar-se em certos círculos intelectuais seculares europeus, na literatura e nas artes, quando os românticos passaram a considerar mais a imagem sensual e sedutora de Lilith, em contraste com a tradicional imagem demoníaca, nocturna, devoradora de crianças, causadora de pragas, depravação e vampirismo.



Metropolis, de Fritz Lang, 1927

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Perséfone


Perséfone é a rainha das trevas, filha da mãe terra, Deméter, e guardiã do segredo dos mortos. Hades, senhor das trevas, enlouquecido de amor pela donzela, raptou-a, enquanto colhia flores. Assim que a levou até seu reino sombrio, fez com que ela comesse a romã, fruta dos mortos (mas também símbolo do amor conjugal).

A partir de então, Perséfone estaria ligada a ele para sempre. Por ter comido a romã, Perséfone perdeu a inocência da infância para se tornar a guardiã dos segredos e mistérios dos sombrios domínios do Inferno.


Ao passar metade do ano com sua mãe Deméter e a outra metade com o seu esposo Hades, Perséfone transita livremente entre dois mundos: a realidade objectiva da luz e a subjectividade do inconsciente - a sombra.



Dead Can Dance - Persephone (the gathering of flowers) - Within the Realm of a Dying Sun

sábado, 24 de julho de 2010

Esperança

George Frederick Watts, Hope, 1885


Pandora não resistiu à curiosidade, abriu a caixa e os males escaparam. Depressa a fechou mas somente se conservou um único bem, a esperança. E dali em diante, foram os homens afligidos por todos os males.

Mas como é que uma caixa contendo todos os males da humanidade também guarda a esperança? Esperança - a palavra em grego é ἐλπίς / elpís, que se define como a espera de alguma coisa; a tradução mais correcta será antecipação. 

Se Pandora não tivesse fechado rapidamente a caixa, os homens sofreriam não só dos dos males como também do conhecimento antecipado deles. A vida seria impossível com o temor perpétuo dos males por vir e com o conhecimento antecipado da hora da morte...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Animais dos Espelhos

Em qualquer tomo das Cartas Edificantes e Curiosas publicadas em Paris durante a primeira metade do século XVIII, o padre Zallinger, da Companhia de Jesus, projectou um exame das ilusões e erros do vulgo de Cantão: num censo preliminar anotou que o Peixe era um ser fugitivo e resplandecente que ninguém tinha tocado, mas que muitos diziam ter visto no fundo dos espelhos. O padre Zallinger morreu em 1736 e o trabalho iniciado pela sua pena ficou inacabado; cento e cinquenta anos depois Herbert Allen Giles retomou a tarefa interrompida. Segundo Giles, a crença do Peixe é parte de um mito mais amplo, que se refere à época lendária do Imperador Amarelo.

Naquele tempo, o mundo dos espelhos e o mundo dos homens não eram, como agora, incomunicáveis. Além disso, eram muito diferentes; não coincidiam nem os seres, nem as cores, nem as formas. Os dois reinos, o especular e o humano, viviam em paz, entrava-se e saía-se pelos espelhos. Uma noite, a gente do espelho invadiu a Terra. A sua força era grande, mas ao fim de sangrentas lutas as artes mágicas do Imperador Amarelo prevaleceram. Derrotou os invasores, encarcerou-os nos espelhos e impôs-lhes a tarefa de repetir, como numa espécie de sono, todos os actos dos homens. Privou-os da sua própria força e aspecto, e reduziu-os a meros reflexos servis. Um dia, no entanto, hão-de sacudir essa letargia mágica.

O primeiro a despertar será o Peixe. No fundo do espelho veremos uma linha muito ténue e a cor dessa linha será uma cor não parecida com nenhuma outra. Depois, hão-de despertar as outras formas. Gradualmente tornar-se-ão diferentes de nós e não nos imitarão. Romperão as barreiras de vidro ou de metal e desta vez não serão vencidas. Juntamente com as criaturas dos espelhos combaterão as criaturas da água.

No Yunnan não se fala do Peixe, mas do Tigre do Espelho. Outros entendem que antes da invasão ouviremos do fundo dos espelhos o rumor das armas.

in O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges


Jia Tian Shi, Espelho

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sheela na Gig




Sheelas na Gigs são esculturas de mulheres nuas exibindo as suas vulvas, desmesuradamente grandes. Encontram-se ,na sua maior parte, em igrejas e castelos medievais na Irlanda e Grã-Bretanha.

Consideradas como protecção contra os espíritos do mal, eram colocadas sobre portas ou janelas para proteger essas aberturas. A vulva também simbolizaria a entrada para o underworld.
Usadas juntamente com outras figuras exibicionistas e bestiais na decoração das igrejas, tinham o propósito religioso de advertir contra os pecados da carne e alertar para os castigos infernais.
A Sheela na Gig é popularmente associada a uma deusa pagã céltica, a bruxa Cailleach, figura da mitologia irlandesa e escocesa, no entanto, esta teoria é muito criticada nos círculos académicos.

Outra interpretação sugere o uso destas esculturas como figuras de fertilidade, a serem exibidas a noivas no dia do casamento ou oferecidas a mulheres em trabalho de parto.

O nome Sheela representa a feminilidade e também um tipo especial de mulher: a mulher sábia, espiritual. A origem de na Gig é mais obscura. Especula-se que significará a genitália feminina, relacionando-a com o termo irlandês jig, por sua vez derivado do francês guigue que, numa era pré-cristã, designaria uma dança orgiástica.

Em templos hindus, encontram-se, sobre as portas, figuras femininas agachadas, semelhantes a sheelas na gigs. À sua passagem, tocam-se nos seus genitais (yoni sagrado) com o propósito de obter uma benção.

A Sheela na Gig, ainda hoje, é considerada por muitos como simples pornografia dos nossos antepassados e, como tal, escondida nas arrecadações e arquivos de muitos museus.

Na minha visão pessoal, considero a Sheela na Gig como símbolo ancestral do eterno ciclo da vida, morte e renascimento, presentes no mundo natural.




Fiona Marron, Hag in the Iron Wood
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