Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Mia Couto
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sexta-feira, 27 de abril de 2018
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Rosa
Não ascendo a rosa.
Fico por espinho, crosta, remorso.
Lição do gesto
de quem retira a mão,
gotejando sangue,
em castigo
de querer possuir
a beleza da flor.
Me sufoca o ser,
me assusta o querer ser.
O que mais quero ter
é a impossibilidade do ter.
Mia Couto, idades cidades divindades
Fico por espinho, crosta, remorso.
Lição do gesto
de quem retira a mão,
gotejando sangue,
em castigo
de querer possuir
a beleza da flor.
Me sufoca o ser,
me assusta o querer ser.
O que mais quero ter
é a impossibilidade do ter.
Mia Couto, idades cidades divindades
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| Frances MacNair, Choice, 1909 |
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