domingo, 19 de novembro de 2017

Pelos passos na areia molhada...

Pelos passos na areia molhada ao fim do dia poder-se-ia pensar 
que estou aqui, presente, mas parti por entre brisas fugidias 
e estou junto às asas do anjo no azul assustador do mar, 
do céu e das sombras; e o peso triste da carne parece-se com o espelho 
quebrado dos gestos e das horas, a imagem da presença dos corpos, 
uma mão, uma pálpebra, o desenho da pele e a voz escutada do tempo; 
o ar do dia dilui-me com frequência no fumo dos limites 
e entre duas vagas algodoadas, se parece que sou real, vereis, 
entrelaçar-se na tristeza o olho do desejo e o da morte, 
e eu estou algures entre dois azuis gémeos que vêm apagar a noite.

Seja como for o leve vento de neve voltará de certeza 
êxito estranho do avesso dos dias; um anjo pousou 
a mão na mesa, à beira-mar, e a cortina 
dança entre o azul e o branco, encantamento do ar, 
e seja como for as mãos nuas das horas alisadas 
não dizem quase nada, levadas pelo anjo triste de cabelos 
de ouro, e sopro de pássaros; pousada, a mão parece-se 
com a sombra do mar porque ainda aí vivem homens, asas cortadas, 
no côncavo da palma do deus grego, a gota de orvalho 
que o caminho cego dos dias nos deixou para estancar a sede.

Joan-Ives Casanova


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Somebody...

“Somebody’s boring me. I think it’s me.”

Dylan Thomas

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

As flores que devoram mel


As flores que devoram mel
ficam negras em frente dos espelhos.
Os animais que devoram estrelas em frente dos espelhos
ficam brancos por detrás dos pêlos
ou das plumas da idade.
As pedras por onde circula a água
ficam vivas de tanto cantar e, quando se voltam,
atingem a sua maior velocidade interior.
Se vêm às portas ver quem bate,
os lençóis cobrem-se de respiradoras —
quando regressam ao sono, deixam as mãos abertas.
Se é uma estátua que bate,
corre-lhe o sangue pela boca, e sobre os ombros
torcem-se os cabelos,
e as asas tremem em frente da porta.
Se é um retrato,
sorri sufocado pela noite adiante.
Os espelhos são negros como os jacintos
da loucura.
Os crimes que olham para o espelho têm uma vibração
silenciosa.
Se é uma criança, diz:
eu cá sou cor-de-laranja.
Porém às vezes é bom ser branco,
é bom estar deitado.
O mel faz bem às pedras,
atrai os olhos dos anjos.
Quem aplaina tábuas
acumula uma obscura sabedoria.
Olha para os espelhos,
tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros
contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe,
a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas
e caladas.
E não batias — cantavas a tua síncope
terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal
respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas
e um fato de perfil — e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda
de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros
os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne
as estampas de ouro
extenuante.
Por isso, por isso, por isso —
somos assim
obscuros.

Herberto Helder

domingo, 22 de outubro de 2017

Canções de Amor

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons.



sábado, 21 de outubro de 2017

Hello Earth

Sabes de mais que todos te preferem,
Que mesmo aqueles que te deixam

Nos trigos te reencontram,
Na erva te procuram,
Na pedra te escutam,
Sem que jamais consigam agarrar-te.

Guillevic


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Visões da Realidade

O Viajante

Ali de onde venho ninguém me retinha.
Sei que ninguém me espera aí para onde vou.

Pela janela desfilam imóveis as paisagens.
Seria maravilhoso não chegar a sítio nenhum.

Permanecer assim:
viajando de um lugar que já não existe
para outro que nunca existirá.


Juan Bonilla

Shirley: Visions of Reality, Gustav Deutsch, 2013



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