sábado, 1 de dezembro de 2012

Serás amor...

Serás amor,
um longo adeus que não acaba?
Viver, desde o principio, é separar-se.
Já no primeiro encontro
com a luz e os lábios
o coração conhece a angústia
de ter que estar cego e só um dia.
Amor é o adiamento milagroso
do seu próprio fim:
é prolongar o feito mágico
de que um e um sejam dois, frente
à primeira sentença da vida.
Com os beijos,
com a dor e o peito se conquistam,
em trabalhosas lutas, entre gozos
semelhantes a jogos,
dias, terras, espaços fabulosos,
a grande separação que está à espera,
irmã da morte ou a própria morte.
Cada beijo perfeito afasta o tempo,
lança-o para trás, alarga o mundo estreito
em que um beijo é possível ainda.
Não é ao chegar nem no encontro
que o amor tem o seu cume:
é na resistência a separar-se
que ele se sente, nu, altíssimo, a tremer.
E a separação não é o instante
em que braços ou vozes
se despedem com gestos materiais.
É de antes, de depois.
Se se estreitam as mãos, ou se se abraça,
nunca é para haver separação,
é porque a alma cegamente sente
que a forma possível de estar juntos
é uma despedida longa, clara.
E que o mais certo é o adeus.

Pedro Salinas in "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"

 
L'Année Dernière à Marienbad, de Alain Resnais, 1961
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