sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

est-ce que tu peux me voir?

- Tu, porquê tu?
- E porque não eu? Em que falto eu ao teu sonho?
- Em nada. Só que nunca imaginei haveres de ser tu a doer-me, nem que vinha de tão longe a tua ausência.
- Afinal não para um encontro...
- Bem o sei, contento-me em respirar-te, em saber-te, longe...
- Cada vez mais longe...
- Perto, cada vez mais perto, uma vez que de longe o sabemos.
- Desde sempre...
- Desde sempre...

- Ver-te é já um privilégio. Vejo-te! Vejo-te!
- Vês ou imaginas?
- Talvez imagine, como quando não te olho e em ti projecto as silhuetas que correm, que se perdem, entre as árvores. Nâo sei. Quando se trata de ti não distingo o sonho da realidade.
- Nunca distinguimos a realidade do nosso próprio sonho e por isso temos medo...
- De quê, querida minha?
- De te perder, quando julgo encontrar-te...
- Mesmo agora que podemos tocar-nos, no meio desta gente real, quotidiana, que espera o eléctrico?
- Mesmo agora. Somo-nos um sonho recíproco. Só os outros são reais. Continuo a ter medo...

- A tua boca sabe a laranja, é um fruto de mil sabores...
- É o teu desejo que tem mil papilas...
- Não, não, é a minha boca que só existe na tua.
- Por isso sou a tua margem, sem ti não tenho inquietas marés.

- Um dia esquecer-me-ás...
- E como é possível perder um sonho, tecido dia a dia?
- O tempo se encarregará de destecê-lo... Um dia virá em que os teus dedos já não saberão o toque breve e frio da minha boca... Um dia virá em que não saberei mais a tua timidez, quase sem gestos... não a saberei mais. Ter-te-ei perdido para sempre.
- E quando será esse quando?
- Ambos temos o poder da destruição, um de nós o fará o nascer.
- Tu...
- Tu.

Luísa Dacosta, Colóquio/Letras nº 28 (Novembro 1975)

Diane Arbus, 1963







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