terça-feira, 27 de setembro de 2011

Cabaré - IV

Rudolf Koppitz


















Todos os punhais que fulgem nos gritos,
todas as fomes que doem no pão,
todo o suor que luz nas estrelas,
todas as cruzes no peso dos braços,
todos os crimes nas penas das pombas,
todas as lanças nos dedos de reza,
todas as feridas que cheiram nos cravos,
todas as sedes com asas nas nuvens,
toda a inveja na limpidez dos espelhos,
todos os soluços para ressuscitar os filhos mortos,
todos os desejos nos alçapões do Frio,
todos os assassinos que andaram ao colo das mães,
todos os olhos pegados nas jóias das montras,
todos os atestados de pobreza com lágrimas de carimbo,
todos os murmúrios do sol, no quarto ao lado, à hora da morte...

Tudo, tudo, tudo
se condensou de repente
numa nuvem negra de milhões de lágrimas
a humilharem-me de ternura
- eu que quero ser alheio, duro, indiferente...

... enquanto os Outros dançam, cantam, bebem,
vivem, amam, riem, suam
neste pobre planeta
magoado das pedras e dos homens
onde cresceu por acaso o meu coração no musgo
aberto para a consciência absurda
deste remorso sem sentido.

José Gomes Ferreira, "Poesia - I"


Rudolf Koppitz, 1925

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A Casa Assombrada

Mas bela, rara, friamente indiferente para além da superfície, a luz que eu procurava continuava a arder do outro lado da vidraça. A morte era o vidro; a morte estava entre nós; vinha da mulher que pela primeira vez, centenas de anos antes, deixara para sempre aquela casa, calafetando as janelas; as salas estavam mergulhadas no escuro.
(...)
Inclinados, o candeeiro seguro por cima de nós, olham-nos profunda e longamente. Demoram-se imóveis. O vento ergue-se de leve; a chama inclina-se um pouco mais. Raios de luar bravios atravessam o chão e as paredes e iluminam, ao encontrarem-nos, os rostos debruçados; os rostos que velam; os rostos que observam os adormecidos e espreitam a sua alegria oculta.

Virginia Woolf, A Casa Assombrada

In the Mirror

“I’ve dreamt in my life dreams that have stayed with me ever after, and changed my ideas: they’ve gone through and through me, like wine though water and altered the colour of my mind."

Emily Brontë, Wuthering Heights




sábado, 17 de setembro de 2011

Hands

Beauty is unbearable, drives us to despair, offering us for a minute the glimpse of an eternity that we should like to stretch out over the whole of time.

Albert Camus


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Inhale...1-2-3-4-5-6-7-8-9-10... exhale...

Agora que o ano lectivo está prestes a arrancar (com todo o stress que isso implica - o dia de hoje, por exemplo, já foi um daqueles... ) e o meu mail já foi inundado com ofertas de conferências, formações, palestras, etc... porque é que não recebo nenhum convite para um workshop deste género?... 


'Taking Off',de Milos Forman, 1971

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Os falsos

Não vejo o rosto a ninguém,
Cuidais que são e não são.
Homens que não vão nem vêm
Parece que avante vão.
Antre o doente e o são
Mente cada ora a espia;
Na meta do meo dia
Andais entre lobo e cão.

Sá de Miranda

Jean-Paul Belmondo, O Acossado, de Jean-Luc Godard, 1959


















terça-feira, 6 de setembro de 2011

Epígrafe para a arte de furtar

Roubam-me Deus
outros o Diabo
- quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
- quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui d' el rei!


03-06-1952
Jorge de Sena, Poesia II, Ed. 70, 1998


domingo, 4 de setembro de 2011

Os Loucos

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.


António Osório, in 'A Ignorância da Morte'

sábado, 3 de setembro de 2011

Sadness

“Sadness is just happiness turned on its ass. It’s all showbiz.”


The Saddest Music in the World, de Guy Maddin, 2003
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