quarta-feira, 15 de junho de 2011

As almas discretas são como as violetas *

* João de Deus


Cheira bem: a café fresco, ou antes, a café misturado com o cheiro das violetas que o pequeno vendedor pusera em cima da minha mesa, insistindo para que lhe comprasse um ramo. A quem o daria? Disse-lhe isto mesmo, que vivia no Porto como quem vive na ilha do Corvo, não tinha a quem dar uma flor. O rapazito, com olhos escuros de potro manso, percebendo que a minha recusa era débil, não arredava pé. Acabei por comprar-lhe as violetas e oferecê-las à lua, acabada de surgir no canto da praça, branca, redonda, carnuda, que, apesar de puta velha, ao aceitá-las pôs-se da cor das cerejas.

Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa, Vol.I



"Choosing", George Frederick Watts

Entre o fulgor vistoso, mas sem aroma, da camélia e a timidez perfumada da violeta, prefiro a última...
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