terça-feira, 28 de junho de 2011

Parte de mim

Robert Doisneau (1912-1994)


"Parte considerável de mim
Quer ser a parte que perdi
Parte de mim uma estrada
Invisível por onde ando
Parte considerável de mim
Procura incessante outro caminho
Parte quer achar o ninho
Resoluta parte do destino
E quer apagar a solidão
Parte considerável de mim
Quer chorar e sorrir
Parte de mim, uma parte que não fui
Parte espera há longos anos
Há tantos anos quantos sonhos
Parte de tantas parte um fio
Que me une e me impulsiona
A esta parte indissolúvel
Indescritível, indestrutível
De todas as partes que se foram
Partes ficaram e se aglutinam
Se amontoam e se refazem
Nesta parte a que eu mesmo
Não sabia pertencer
Nesta metamorfose
Sabe-se lá que parte acordará amanhã
E vai querer repartir meu destino
Espero pacientemente em parte...
Sem repartir as horas
Sem apagar os sonhos
Sem despedir ilusões
Sem cometer o afobo de partir
Sem a parte que acordará em mim."


Carlos Gildemar Pontes

domingo, 26 de junho de 2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Amor sem eira nem beira

Fedra está apaixonada
por Hipólito
Hipólito
não está apaixonado
por Fedra
Fedra enforca-se
Hipólito morre
num acidente

Adília Lopes






Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
Suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme do Carlito!

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeiras
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

Carlos Drummond de Andrade, in O Amor Bate na Aorta

Jean-Antoine Watteau, La Leçon d'Amour

quinta-feira, 23 de junho de 2011

terça-feira, 21 de junho de 2011

Os amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.


Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

Labirinto ou não foi nada

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua ...
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira, in "À Guitarra e à Viola"


Muddy Waters - You Can't Lose What You Ain't Never Had - 1964

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Sit Down

Por mais que aborreças essa melodia
da vida quotidiana, chata e nevoenta,
que te serena;
por mais lobo sem dentes que te creias;
por mais saber, experiência e paz de espírito;
por mais ordem que ponhas a decorar as paredes,
por mais idade que a idade te dê,
por mais vidas que os livros te ofereçam,
e acrescenta a esta lista aquilo que quiseres,
há um poço selvagem no fundo de ti mesmo,
um lugar tão teu como a tua própria morte,
de pedra e de noite, de fogo e de lágrimas.
Em suas duvidosas águas
repousa desde sempre o que não dorme,
um remoto lugar onde se forjam
abominações e sonhos,
crimes e traição.
É o poço do que és capaz,
onde dormem répteis e há um fulgor
e uma profunda espera.
No teu rosto também, tu és esse poço.

Já sei que o sabias. Por isso,
aceita, brinda e bebe.


Carlos Marzal (Trad. Albino M.)



quarta-feira, 15 de junho de 2011

Un Sospiro

As almas discretas são como as violetas *

* João de Deus


Cheira bem: a café fresco, ou antes, a café misturado com o cheiro das violetas que o pequeno vendedor pusera em cima da minha mesa, insistindo para que lhe comprasse um ramo. A quem o daria? Disse-lhe isto mesmo, que vivia no Porto como quem vive na ilha do Corvo, não tinha a quem dar uma flor. O rapazito, com olhos escuros de potro manso, percebendo que a minha recusa era débil, não arredava pé. Acabei por comprar-lhe as violetas e oferecê-las à lua, acabada de surgir no canto da praça, branca, redonda, carnuda, que, apesar de puta velha, ao aceitá-las pôs-se da cor das cerejas.

Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa, Vol.I



"Choosing", George Frederick Watts

Entre o fulgor vistoso, mas sem aroma, da camélia e a timidez perfumada da violeta, prefiro a última...

A Bicicleta

O meu marido
saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.

Alexandre O'Neill in As horas já de números vestidas(1981)



domingo, 12 de junho de 2011

Um poema

Há muitos anos um velho poeta escreveu a tinta numa folha de papel um poema. Depois, como era costume nesse tempo, lançou um pouco de areia sobre a folha para que a tinta com que escrevera secasse mais depressa. Esperou alguns momentos e recolheu de novo a areia numa pequena caixa destinada a esse efeito. Reparou, então, que na folha de papel o poema tinha desaparecido. Não se preocupou muito. Sabia que as palavras que escrevera tinham ficado naqueles grãos de areia.

Havia dias em que se aproximava daquela caixa e gostava de a contemplar porque sabia que o poema se encontrava dentro dela. Por vezes retirava alguns grãos. A sua atenção acabava por se fixar num deles como se estivesse ali a ler ou a decifrar apenas uma letra, uma palavra, o poema inteiro, o seu próprio espírito.

Foi assim que a morte o surpreendeu. Talvez a história terminasse aqui, mas não, porque nesta como em todas as outras histórias o tempo pode decorrer tanto do passado para o presente como deste para aquele. Por isso é-nos dado concluir ou imaginar que uma criança - aquela que há-de ser, mais tarde, o velho poeta - entra no mesmo quarto onde estava a caixa com o punhado de areia a que nos referimos. Repara nela com curiosidade. Aproxima-se devagar e abre-a, vê aquela areia que, para si, não tem nenhum significado. Ou, melhor, começa a tê-lo porque pensa que a deve restituir a uma praia.

Resolve fazê-lo, um dia. Ao chegar junto do mar, deixa cair aí os grãos de areia e diz: "É apenas isto". Ninguém se encontrava naquela praia. Por essa razão, só o mar podia ouvir estas palavras. Quais? As do poema que estava naquela mão cheia de areia ou as da criança? Ambas, certamente, porque nunca foram diferentes umas das outras.


Fernando Guimarães, 1994

sábado, 4 de junho de 2011

Meteorológica

para o José Bernardino

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico

Adília Lopes



A solidão

A solidão
de Adão
antes da criação
de Eva
devia ser
terrível
mas a minha
é bem pior
os homens
que escreveram
o Génesis
não pensaram
que Adão
em vez de saudar
Eva
com um grito de júbilo
a mandasse embora
com sete pedras na mão
mas eu acho
que foi
o que me aconteceu
temendo isso
Deus
não me deu
o papel de Eva
nem o de Maria
porque também
S. José
me tinha corrido
a pontapé.


Adília Lopes, Dobra Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2009



A Bela Acordada

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço, estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar. 
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe. Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe, descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às criadas. E o rei convidou a mulher para jantar. Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar.

Adília Lopes, OBRAA Bela Acordada


Michael Shelukhin

A ti tudo te foi dado

A ti tudo
te foi dado
e não tratas
os outros
com doçura

És um nababo
e és um nabo
(quem te dera
seres um nabo)


Adília Lopes, Dobra Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2009


A propósito de estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

Adília Lopes



Dinah Washington - Mad about the boy

Deixa o dia de ontem

Deixa
o dia de ontem
com Deus

E vive
em paz
a espera

A cada dia
basta
a sua pena

E
o amanhã
é
como o arco-íris

Um anjo
está contigo
quando desanimas

Um anjo
está contigo
quando te alegras

Sempre
um anjo
está contigo

E
o arco-íris
brilha
como a água
que corre

Adília Lopes, Dobra Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2009

Edgar Maxence

Deus é a nossa mulher-a-dias

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa

Adília Lopes, Dobra Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2009


fotografia de Vivian Maier

Deus é um boomerang

Deus é um boomerang
e eu sou a sua filha pródiga


Adília Lopes, Dobra Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2009


Edvard Munch

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A Drinking Song

Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That's all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.

W. B. Yeats


Georges De Feure, Le Buveur d' Absinthe

Pedir um desejo



Um dia o soberbo cai
E o humilde sobressai.


Martine Franck


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Era uma vez...

Daniel Maclise, Tale, 1867

Quando eu era pequenino
gostava de ouvir contar
histórias de princesinhas
encantadas ao luar.

Havia então lá em casa
uma criada velhinha:
a Sérgia contava histórias
- e que graça que ela tinha!

Lendas de reis e de fadas,
inda me encheis a lembrança!
Que saudades de vós tenho,
ó meus contos de criança!

"Era uma vez..." As histórias
começavam sempre assim;
e eu, então, sem me mexer,
ouvia-as até ao fim.

Lembro-me ainda tão bem!
Os irmãos à minha beira,
calados! E a boa Sérgia
contava desta maneira:

"Era uma vez..." E, depois,
olhos fitos nos seus lábios,
ouvia contos sem conta
de gigantes e de sábios...

"Era uma vez..." E, por fim,
a voz da Sérgia parava...
E assim como eu te contei
era como ela contava.

Ai! que saudade, que pena,
que nos meus olhos tu vês!
Eu sentava-me e ela, então,
começava: - "Era uma vez..."

Adolfo Simões Muller, O Príncipe Imaginário e Outros Contos Tradicionais Portugueses


Feliz Dia da Criança (novas e velhas, exteriores e interiores)
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