domingo, 12 de dezembro de 2010

Lunática

A Lua, personificação do capricho, olhou pela janela enquanto dormias no teu berço, e disse consigo mesma:
"Gosto desta criança".

E desceu solenemente a sua escadaria de nuvens e passou sem ruídos através das vidraças. E depois envolveu-te com a ternura flexível duma mãe, depondo-te no rosto as suas cores. Daí as tuas pupilas ficarem verdes, e as tuas faces extaordinariamente pálidas. Foi ao contemplares essa visitante que os teus olhos tão bizarramente se dilataram; e ela estreitou-te o peito com tanto amor que tu ficaste para sempre com vontade de chorar.

Entretanto, na expansão da sua alegria, a Lua enchia todo o teu quarto com uma atmosfera fosforescente, como um veneno luminoso; e toda essa luz viva pensava e dizia: "Hás-de sofrer eternamente a influência do meu beijo. Serás bela à minha maneira. Amarás aquilo que eu amo e aquilo porque sou amada: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde não estejas; o amante que não conheças; as flores monstruosas, os perfumes que fazem delirar; os gatos que se espreguiçam sobre os pianos e gemem como mulheres, com uma voz rouca e suave!

"E tu serás amada pelos amantes, cortejada pelos meus cortesãos. Tu serás a rainha dos homens de olhos verdes, cujo peito igualmente estreitei nas minhas carícias nocturnas; daqueles que amam o mar imenso, tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde não estão, a mulher que eles não conhecem, as flores sinistras que se semelham a turíbulos duma religião desconhecida, os perfumes que perturbam a vontade, e os animais selvagens e voluptuosos que são emblemas da sua loucura".

E é por isso, maldita e adorada criança mimalha, que eu estou agora deitado a teus pés, procurando em toda a tua pessoa o reflexo da temerosa Divindade, da fatídica madrinha, da ama peçonhenta de todos os lunáticos.

in O Spleen de Paris, de Charles Baudelaire


Madeline von Foerster
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