segunda-feira, 28 de junho de 2010

Hospital

Dizem os chineses que há três espelhos que reflectem a nossa personalidade; o primeiro reflecte como os outros nos vêem, o segundo como nós próprios nos vemos e o terceiro como na verdade somos. Olhando para trás também eu vejo vários caminhos meus e várias vidas minhas. E vejo mais, vejo o que então não via e certamente vejo menos do que então vivia. A memória é também essa outra que eu sou e que decide o que muito bem entende – recordar ou esquecer. A minha história são muitos presentes que vivi, mas agora são sobretudo aqueles que recordo, momentos que por alguma razão se fixaram na memória e hoje ainda aí permanecem tão vivos como se de ontem se tratasse, memórias que se instalaram algures no meu sentir.

Isabel Ruth, “História incompleta”, in Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 997, 17 de Dezembro de 2008

Flash # 1

Pela mão de minha mãe entro num corredor longo e escuro. Pisamos uma passadeira vermelha. Olho para cima e o rosto feio e enrugado de uma velha fita-me. “Dá um beijinho à senhora” – não quero. Mau grado meu, o rosto da velha baixa-se e toca-me. A sua face pica-me.

Santiago do Cacém - 1975

Flash # 2

Estou deitada numa estrada e não consigo levantar-me. Olho para o céu. “É tão azul! O que aconteceu? Onde está a minha mãe?”. Devo estar a gritar porque oiço dizer: “Acalma-te! Já vais ter com a tua mãe! Não chores mais!”. Uns braços levantam-me e levam-me até ela. Está sentada com a minha irmã bebé ao colo, à beira da estrada, no banco do carro. “Mas onde está o resto do carro?!”.

Numa estrada algures - 1976

Flash # 3

Saio do quarto onde está minha irmã com toda a gente à sua volta. Há vários meses que todos os fins de semana é sempre o mesmo e já sei de cor o caminho para o hospital. Se me perdesse de meus pais em Lisboa, não teria medo, pois saberia ir lá ter. Só receio ficar cansada de tanto andar porque é muito longe, por isso, à cautela, não largo a mão de minha mãe, nem no comboio nem no autocarro. “Tanta gente!”

Vagueio pelos corredores. “O cheiro daqui é esquisito… diferente do da rua. E do de casa. “

Espreito para dentro de outro quarto e vejo outras crianças. “Olá, querem brincar?”. Não têm cabelo e as suas cabeças são muito grandes. Uma delas olha-me. Não sorri nem fala. De repente, aparece uma enfermeira que diz “A menina não pode estar aqui a incomodar!“. Saio a correr, muito assustada, e regresso ao quarto da minha irmã. “O que é que estiveste a fazer?”, “Nada…”.


Hospital Egas Moniz - 1980


Joy Division - She's Lost Control

sábado, 26 de junho de 2010

Caminhos


Gabriela Nunes, Brincando no computador I, 2008



Gabriela Nunes, Brincando no computador II, 2008

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Procurando um caminho

-Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
-Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
-Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
-Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.

(...)

- desde que eu chegue a algum lado - acrescentou Alice a título de explicação.
- Oh, certamente que hás-de chegar - disse o gato - desde que caminhes o suficiente.)


Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

terça-feira, 22 de junho de 2010

Dolce Far Niente


John William Godward, Dolce Far Niente, 1904

Ainda não mas quase lá...

domingo, 20 de junho de 2010

Auto-retrato


Marianela de la Hoz, Me voy a dedicar a ser santa, 2007

7

7

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá-Carneiro

sábado, 19 de junho de 2010

Hell is repetition

To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!


Shakespeare, Macbeth, Act Five, Scene V

PJ Harvey - Dear Darkness

Yo m'enamori d'un aire


Arianna Savall - Yo m'enamori d'un aire

YO M' ENAMORI D' UN AIRE
(Anònim Sefardi)

Yo m'enamori d'un aire,
d'un aire d'un donzell,
d'un donzell molt formós,
bell del meu cor.

Yo m'enamori de nit,
la lluna m' enganyà.
Si hagués estat de dia,
yo no hauria conegut l'amor.

Si altre cop yo m'enamoro,
que sigui de dia, amb sol.

domingo, 13 de junho de 2010

La Belle Dame Sans Merci


John William Waterhouse, La Belle Dame Sans Merci, 1893


Ballad


I.

O what can ail thee, knight-at-arms,
Alone and palely loitering?
The sedge has wither’d from the lake,
And no birds sing.

II.

O what can ail thee, knight-at-arms!
So haggard and so woe-begone?
The squirrel’s granary is full,
And the harvest’s done.

III.

I see a lily on thy brow
With anguish moist and fever dew,
And on thy cheeks a fading rose
Fast withereth too.

IV.

I met a lady in the meads,
Full beautiful—a faery’s child,
Her hair was long, her foot was light,
And her eyes were wild.

V.

I made a garland for her head,
And bracelets too, and fragrant zone;
She look’d at me as she did love,
And made sweet moan.

VI.

I set her on my pacing steed,
And nothing else saw all day long,
For sidelong would she bend, and sing
A faery’s song.

VII.

She found me roots of relish sweet,
And honey wild, and manna dew,
And sure in language strange she said—
“I love thee true.”

VIII.

She took me to her elfin grot,
And there she wept, and sigh’d fill sore,
And there I shut her wild wild eyes
With kisses four.

IX.

And there she lulled me asleep,
And there I dream’d—Ah! woe betide!
The latest dream I ever dream’d
On the cold hill’s side.

X.

I saw pale kings and princes too,
Pale warriors, death-pale were they all;
They cried—“La Belle Dame sans Merci
Hath thee in thrall!”

XI.

I saw their starved lips in the gloam,
With horrid warning gaped wide,
And I awoke and found me here,
On the cold hill’s side.

XII.

And this is why I sojourn here,
Alone and palely loitering,
Though the sedge is wither’d from the lake,
And no birds sing.


John Keats (1795-1821)

sábado, 12 de junho de 2010

Le Tourbillon

Jeanne Moureau, em Jules et Jim, de François Truffaut, 1962

Le tourbillon de la vie

Elle avait des bagues à chaque doigt,
Des tas de bracelets autour des poignets,
Et puis elle chantait avec une voix
Qui, sitôt, m'enjôla.

Elle avait des yeux, des yeux d'opale,
Qui me fascinaient, qui me fascinaient.
Y avait l'ovale de son visage pâle
De femme fatale qui m'fut fatale.

On s'est connus, on s'est reconnus,
On s'est perdus de vue, on s'est r'perdus d'vue
On s'est retrouvés, on s'est réchauffés,
Puis on s'est séparés.

Chacun pour soi est reparti.
Dans l'tourbillon de la vie
Je l'ai revue un soir, hàie, hàie, hàie
Ça fait déjà un fameux bail.

Au son des banjos je l'ai reconnue.
Ce curieux sourire qui m'avait tant plu.
Sa voix si fatale, son beau visage pâle
M'émurent plus que jamais.

Je me suis soûlé en l'écoutant.
L'alcool fait oublier le temps.
Je me suis réveillé en sentant
Des baisers sur mon front brûlant.

On s'est connus, on s'est reconnus.
On s'est perdus de vue, on s'est r'perdus de vue
On s'est retrouvés, on s'est séparés.
Dans le tourbillon de la vie.

On a continué à toumer
Tous les deux enlacés
Tous les deux enlacés.
Puis on s'est réchauffés.

Chacun pour soi est reparti.
Dans l'tourbillon de la vie.
Je l'ai revue un soir ah là là
Elle est retombée dans mes bras.

Quand on s'est connus,
Quand on s'est reconnus,
Pourquoi se perdre de vue,
Se reperdre de vue ?

Quand on s'est retrouvés,
Quand on s'est réchauffés,
Pourquoi se séparer ?

Alors tous deux on est repartis
Dans le tourbillon de la vie
On a continué à tourner
Tous les deux enlacés
Tous les deux enlacés.

Caminho


Frances MacNair, Tis a long path which wanders toward desire, 1909-15

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Viver Sempre Também Cansa

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira, Militante


Orlando, de Sally Potter, 1992

Omen


Frances MacNair, Ill Omen, 1893

quinta-feira, 10 de junho de 2010

"Ser à maneira portuguesa"

A questão portuguesa não é de se falar ou não falar português. É de ser ou não ser à maneira portuguesa, que é ser variadíssimas coisas ao mesmo tempo, e por vezes coisas que parecem contraditórias, e é a possibilidade de tomar um tema e olhar de várias maneiras, conforme o temperamento da pessoa, a época em que viveram, a linguagem que usavam, a maneira como se sentiam na vida.


Agostinho da Silva - 5º Império e a Voz da Deusa de Camões

terça-feira, 8 de junho de 2010

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Loucura


Dino Valls, Incubus, 1992

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira para tudo?
Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para
olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros

Medo


Dino Valls, Aurum Nostrum, 2009

Perfilados de Medo

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido.

Alexandre O'Neill, Poesias Completas

Impossibilidade


Dino Valls, La Herida, 1997

Rosa

Não ascendo a rosa.
Fico por espinho, crosta, remorso.

Lição do gesto
de quem retira a mão,
gotejando sangue,
em castigo
de querer possuir
a beleza da flor.

Me sufoca o ser,
me assusta o querer ser.

O que mais quero ter
é a impossibilidade do ter.

Mia Couto, idades cidades divindades

Comigo


Dino Valls, La Cuerda de Plata, 1995

Mote

De que me serve fugir
da morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?

Voltas

Tenho-me persuadido
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.

E se de mi me livrasse
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe,
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.

Luís Vaz de Camões, Rimas

Hidra


Dino Valls, Trivium, 1999

Angústia
Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

Dupla


Dino Valls, Rorschach, 1991


DAS TROVAS À MANEIRA ANTIGA

Comigo me desavim
Sou posto em todo o perigo
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia;
Antes que esta assi crescesse;
Agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.

Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo
tamanho imigo de mim?

Francisco de Sá de Miranda (1495-1558)

domingo, 6 de junho de 2010

The White Lady


Raphaelle Boitel - White Lady
Realização - Antoine Carlier
Piano - Guillaume De Chassy

sábado, 5 de junho de 2010

Fidelidade


Diane Arbus, The Headless Woman, 1961

Quando é que as mulheres começarão a ter a intuição de que acima de todas as infidelidades se acha a da verdade, quer dizer, a fidelidade a si mesmas, e que marido, filhos e países não são nada perante isso?

Alice James

Espelho de Casados


Diane Arbus, Westchester family, 1968

Muy conhecida cousa he quem varias e inconstantes som as molheres. Varia e mudauel cousa he a molher que tres vezes se muda na hora. E nam faltou quem disse e nam fuy eu. Que quando carecer ho mar de Ondas, e os ryos de peyxes, então cesara a molher de enganar, e de se mudar. E portanto pyntão a Fortuna em fegura de molher em cima de uma bola, a denotar que logo se revolue e muda. (...) Ho geeral das molheres, tirando muytas em que se acha vertude e excellencia, som muy opiniaticas. Soberbas e Enganosas. Por ellas se disse. Armado dyabo. Cabeça de pecado. Destruyçom do Parayso.

(João de Barros, Espelho de Casados, parte I, fl. VII, escrito no século XVI)

Retrato da Morte


Diane Arbus, Mrs. T. Charlton Henry

A UMA DAMA QUE DESMAIOU
DE VER UMA CAVEIRA

Mote:

Já fui flor, já fui bonina,
Agora estou desta sorte,
Fui o retrato da vida
Agora sou o da morte.

Glosa:

Se desmaias de me ver,
Eu também de ver-te a ti,
Pois qual tu te ves me vi,
E qual me ves has-de ser;
Esta caveira has-de ter,
Se te imaginas divina,
Que eu também quando menina
Fui um sol, fui uma aurora,
E se sou caveira agora,
Já fui flor, já fui bonina.

Se me viras Primavera,
Sendo uma inveja de flores,
Então mais te dera horrores,
Então alento te dera;
Secou esta verde hera
Um cruel sopro da morte,
Porque com seu braço forte
Tudo prosta, tudo humilha,
Que eu ontem fui maravilha,
Agora estou desta sorte.

Ver-me ontem era ventura,
Hoje ver-me horrores dou;
Hoje uma caveira sou,
Ontem flor da fermosura.
Foi tal a minha pintura,
Tão valente e tão subida,
Tão forte e tão presumida,
Tão corada, tão fermosa,
Que soberba e vangloriosa
Fui o retrato da vida.

Acabou-se este portento,
Já este sol se eclipsou,
Já esta flor se murchou,
Já se acabou este alento.
Como a vida foi um vento,
Acabou-se de tal sorte,
Que sendo com meu ornato
Ontem da vida retrato,
Agora sou o da morte.

(Poema de António Serrão de Castro, 1610-1685)

About the meaning of life #4


Diane Arbus, Albino Sword Swallower at a carnival, 1970

Life's but a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more; it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.


William Shakespeare, Macbeth, Act Five, Scene V

Deus


Diane Arbus, Christ in a lobby, N.Y.C., 1964

Deus está em toda a parte, mas o homem somente o encontra onde o busca.

Textos Judaicos - Mordechol Kaplan

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Espelho Convexo

Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar ?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assi co a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.

Luís Vaz de Camões

INTERVALO DOLOROSO - Autobiografia sem factos

112.

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanismo é abjecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego



Jan Van Eyck, Detalhe do Espelho Convexo - O Casamento dos Arnolfini, 1434

terça-feira, 1 de junho de 2010

Infância

"Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão imensamente vivido como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido, aqueles que passámos com um livro preferido. Tudo quanto, ao que parecia, os enchia para os outros, e que afastávamos como um obstáculo vulgar a um prazer divino: a brincadeira para a qual um amigo nos vinha buscar na passagem mais interessante, a abelha, ou o raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da página ou a mudar de lugar, as provisões para o lanche que nos obrigavam a levar e que deixávamos ao nosso lado no banco, sem lhes tocar, enquanto, sobre a nossa cabeça, o sol diminuía de intensidade no céu azul, o jantar que motivara o regresso a casa e durante o qual só pensávamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, o capitulo interrompido, tudo isto, que a leitura nos devia ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contrário gravava em nós uma recordação de tal modo doce (de tal modo preciosa no nosso entendimento actual do que o que líamos então com amor) que, se ainda hoje nos acontece folhear esses livros de outrora, é apenas como sendo únicos calendários que guardámos dos dias passados, e com a esperança de ver reflectidas nas suas páginas as casas e os lagos que já não existem. (...)"

Marcel Proust, O Prazer da Leitura

Dá-me a Lua, mãe



Charles Maurin, Maternité, 1893

- Dá-me a Lua, mãe, dá-me a Lua.
- Filho, a Lua está longe.

-Leva-me à nuvem mais alta.
- Filho, há nuvens nos sonhos.

- Mãe, dá-me um dia sem chuva.
- Filho, tem pena da terra.

- Leva-me ao cimo do monte.
- Filho, o caminho é de pedras.

- Mãe, dá-me aquela andorinha.
- Filho, não a queiras prender.

- Leva-me ao fim do mar.
- Filho, o mar não tem fim.

- Mãe. Eu queria uma estrada,
uma estrela e um cavalo.

- Filho, mas não te canses,
não te queimes, não te percas.

- Mãe, dá-me o negro do negro
que é a tinta dos teus olhos.

- Filho, os teus olhos são negros
como o negro dos meus olhos. "

João Pedro Mésseder, in "Conversas", Conto estrelas em ti, 17 poetas escrevem para a infância
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