segunda-feira, 10 de maio de 2010

Il ne s'agit pas de comprendre...Il s'agit de croire...

(...) Depois, chamei Heurtebise ao anjo de Orfeu. Cito a raiz do nome por causa de numerosas coincidências ainda motivadas por ele.

COINCIDÊNCIAS À RODA DE UM NOME E DUMA PEÇA

Quando Marcel Herrand quis repetir a peça na véspera do espectáculo, reunimo-nos em minha casa, na rua de Anjou. Repetíamo-la no vestíbulo e Herrand acabara de dizer: "Com estas luvas atravessareis os espelhos como se fossem água", quando um ruído medonho se fez ouvir no fundo do apartamento. Dum grande espelho existente na casa de banho, apenas restava a moldura. O espelho, pulverizado, juncava o chão.
Glenway Wescott e Monroe Wheeler, tendo vindo a Paris para a estreia de ORFEU, foram detidos a caminho do teatro, no Boulevard Raspail, por um choque: um vidro quebrado e um cavalo branco que enfiou a cabeça no automóvel.
Um ano depois, almoçava eu em casa deles em Ville-franche-sur-Mer onde partilhavam uma casa isolada, sobre a colina. Eles traduziam ORFEU e diziam-me que um vidreiro seria incompreensível na América. Opus-lhes KID, onde Chaplin representa em Nova York um papel de vidreiro:"É raro em Nova York e raro em Paris, disse-lhes eu, onde não se encontram quase nunca." Pediram-me então que lhes descrevesse um, enquanto, atravessando o jardim, me conduziam até ao gradeamento, quando ouvimos e vimos um vidreiro, que contra toda a expectativa e verosimilhança, passava na rua deserta para logo desaparecer.
É normal que, sabendo-me crente e crédulo, eu desconfie permanentemente e não dê demasiado depressa a alguns acasos, um significado de ordem sobrenatural.
Nunca se perturbar perante o mistério para que o mistério venha só e não encontre a pista enevoada pela nossa impaciência de entrar em contacto com ele. Não esquecer que as tomadas de contacto oficiais com o desconhecido, acabam sempre num negócio comercial, tal como Lourdes, ou por uma carga de polícia como Gilles de Rais.

Jean Cocteau, Ópio, diário de uma desintoxicação



Orphée - La traversée du Miroir, de Jean Cocteau,1950
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